Vó Gorda

Postado em Comportamento no dia 18/02/2008 |

“O Senhor te abençoe e te guarde!
O Senhor faça resplandecer o seu rosto sobre ti e te seja benigno!
O Senhor mostre para ti a sua face e te conceda a Paz! ”
Nm 6,22,26

vo-gorda.jpegA bênção acima é para minha avó Maria Augusta, mãe de minha mãe. Eu sempre lhe pedi “a bênção Vó” nos encontros e despedidas, ao acordar e ao dormir, com aquele beijo na mão retribuído por ela com beijos no rosto. Hoje, quando faz exatos 20 anos que ela se foi, quem a abençoa sou eu. Foi neste exato horário de final de tarde, ao sair da sessão de hemodiálise na Santa Casa, que ela simplesmente não aguentou. O coração parou e, segundo nos relatou um amigo que estava com ela, Vó Gorda sorria contando alguma história sobre nós. Era jovem, tinha apenas 63 anos. Certamente não é idade para deixar a família, mas certas coisas não se escolhe. No entanto, como neta (mais velha e eu sempre digo aos meus primos, para fazer ciúme, que era a favorita) escolho lembrar dela quando tenho vontade e me permitir imaginar como seria ainda tê-la. Ela sempre repetia que seu sonho era me ver fazer 15 anos, um marco na sua visão de mundo. No entanto, sei que se orgulhou mesmo em minha formaturinha de primeiro grau. Analfabeta funcional, apesar de viúva de um jornalista -e dono de jornal- ela via no estudo a maior bênção da vida. Viu os filhas se formarem na faculdade e dos netos não mais esperava, tinha plena certeza de seu sucesso naquilo que lhe parecia o melhor, o estudo, a educação.

Talvez ela devesse ter desejado me ver realizar mais porque faleceu 13 dias depois dos meus 15 anos. Não me viu me formar outras vezes, no segundo grau técnico e na faculdade, não me viu casar, ser mãe, ser feliz. Mas nestes 20 anos eu tenho me permitido imaginar como seria se ela estivesse aqui e creio que esta capacidade de vivenciar seu amor a faz presente. Se olho para trás, parece-me que não foi há tanto tempo e que ela de fato estava aqui, realizando-se com minha felicidade na carreira, na maternidade, no casamento. Digo aos meus filhos que nenhuma bisavó teria um colo tão bom quanto o da vó Gorda e como na história de Bisa Bia, Bisa Bel penso se um dia eu serei esta bisavó que ela não foi. Terei este colo delicioso, o andar quieto no corredor a levar um leitinho morno para a neta que está estudando até tarde, o carinho de se lembrar de comprar meias, enfim, as coisas que fazem as avós serem mais tão diferentes das mães, das tias, das babás.

Hoje é um dia especial. Vejo a vida em sua plenitude, acontecendo à revelia da nossa vontade. E agradeço a Deus pela vida que vivo.

P.S. Hoje também é o dia em que meu sobrinho CJ completa um mês de vida. :)

Sam @samegui Shiraishi

facebooktwittergoogle pluslinkedin

Mãe, jornalista e blogueira no @avidaquer, hub multiplicador de cultura e conhecimento. Paranaense de alma nipônica morando na Mooca, apaixonada por gente.


0 Responses to “Vó Gorda”

  1. Fiquei emocionada lendo este post, lembrei da minha avó, a quem sempre pedíamos a bênção “Bença, Vó” e ela respondia “Deus te abençoe, minha filha”. Nossa, quanto amor nossas avós nos transmitiam com estas palavras. Que bela homenagem, Sam, tenho certeza que onde estiver ela ficará feliz. (E tua avó era minha xara! ).
    Beijos, amiga.

  2. nossa Sam, tão lindo que estou aqui aos prantos… bjs

  3. Luma says:

    Sam…o importante é que usufruiu do status de preferida! :) e pode receber o carinho e os ensinamentos que agora guiam a sua vida. Mesmo que muitos não gostem, temos que celebrar a morte, lembrando de quem se foi e também a vida, acolhendo com alegria aqueles que agora irão partilhar os nossos dias. Beijus

  4. Evellyn says:

    Sam, que linda homenagem!
    Nem consigo imaginar não ter minha vó por perto, mesmo que seja apenas para ouví-la ao telefone… A idade está começando a pesar, ela já repete a mesma coisa mil vezes, a vida já deu muitas dores para ela e às vezes sinto que ela está cansando…
    Também sou a neta mais velha, mais mimada, mais tudo, e sei como é bom esse carinho que recebemos.
    Beijos

Leave a Reply