Virtude e aparência no MASP
Postado em Artes no dia 30/01/2009 |
Raffaello Sanzio - Ressurreição De Cristo
Ver obras de pintures renomados é sempre marcante e nos faz sentir mais próximos dos grandes mestres e das grandes mentes. Em Virtude e Aparência (A Caminho do Moderno), que reúne obras de Botticelli, Andréa Mantegna, Pietro Perugino, Bellini, Rafael, Tintoretto, El Greco, Bosch e Dornicke, entre outros, o MASP nos oferece uma reunirão ímpar. São 46 obras do século XIII ao XVIII dispostos em quatro grupos: “Pré-Renascença” “Primeiro momento moderno”, “Mais drama, mais ação” e “À superfície das coisas”.
A reunião de obras mostra o momento em que a separação e o conflito instalam-se na arte ocidental e dos instantes logo posteriores, quando as aparências se afirmam e se caminha para o moderno. A arte renascentista e moderna, por terem surgido na história da humanidade com a força do Iluminismo (movimento que sempre me encantou por trazer a luz de volta às artes e ao pensamento ocidental e significar uma abertura de consciência em muitos sentidos), é uma das mais conhecidas do grande público. Suas obras são as mais famosas e facilmente reconhecidas e, talvez, sejam também à primeira vista as mais “digeríveis”. Mas se olharmos com atenção, elas guardam em si uma profundidade de valores, opiniões e ranços da sociedade européia que nos ensinam muito sobre a evolução da humanidade. Sempre gostei de observar através da arte (artes plásticas, música e literatura) os avanços e retrocessos da humanidade, em reflexões meio amalucadas (do pensar out-of-the-box que geralmente envolvem nossos brunchs domingueiros em familia. E os passeios pelo MASP são um prato cheio para este repensar.
Para quem gosta de parâmetros para a reflexão, o curador do museu, Teixeira Coelho, afirma que
“nesta exposição estão presentes duas linhas de força da história da arte ocidental. A primeira se traduz na idéia de que, ao olhar-se para uma obra, era preciso ver além do que estava nela representado. Como John Ruskin insistia no século XIX, entregar-se à imitação, insistir no valor da arte por sua capacidade de reproduzir as coisas tais quais era pouco e vulgar; os prazeres desse olhar primário estavam entre os mais desprezíveis. Na arte de tema religioso, essa linha está presente: a beleza de uma madona não reside tanto (ou nada) no que se vê na tela, mas num outro plano, além ou superior, acessível apenas ao intelecto. A virtude da obra estava em grande parte fora dela, talvez acima dela. Há virtudes visíveis, sem dúvida, como a perícia do artista. Mas a principal delas ficava além do visível. São exemplos dessa linha obras do século XIII como a Madonna, do Maestro Del Bigallo, além das de Rafael, Bellini e Botticelli.
Ao lado dessa arte, porém, para atender a outras necessidades da aristocracia e da burguesia nascente num mundo em transformação, surge no século XVI uma outra voltada para as aparências em todos visíveis. Entre essas, a nascente arte da paisagem e do retrato. Virtudes imateriais ainda existem, mas as aparências da tela começam a predominar são, mesmo, essenciais. Tudo está à superfície das coisas e o prazer consiste em vê-las, a exemplo do que se vê nas telas de Metsys, Boucher e Fragonard representando cenas do dia a dia ou aquelas cuja beleza maior está no equilíbrio entre as cores da pele e dos tecidos das personagens.”
Serviço:
- O que: Exposição Virtude e Aparêccia a caminho do moderno
- Onde: MASP – Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (Av. Paulista, 1578 – Cerqueira César – São Paulo – SP)
- Quando: terça-feira a domingo e feriados, das 11h às 18h; quinta-feira até 20h.
- Quanto: ingressos a R$ 15 (inteira) e R$ 7,00 (estudante), gratuito para menores de 10 anos e maiores de 60 anos. Terça-feira tem entrada gratuita até as 18:00 horas
- Informações: (11) 3251 5644

Maestro Di San Martino - Virgem Com Menino Jesus
Quando vimos esta obra no MASP com os meninos, foi impressionante notar como eles não são aculturados sobre os santos e a santificação dos personagens bíblicos. Somos cristãos, mas não somos iconoclastas e as imagens que na minha infância eram comuns nas igrejas e nas Bíblias ilustradas não eram conhecidas deles. Vi a mesma reação em outras crianças, o que me levou a algumas reflexões que merecem um post!

Ottaviano Nelli - Madona Com O Menino Entre Santa Madalena E Santo Estevão
Sam @samegui Shiraishi
Mãe, jornalista e blogueira no @avidaquer, hub multiplicador de cultura e conhecimento. Paranaense de alma nipônica morando na Mooca, apaixonada por gente.




Tanta coisa boa para se ver nos museus e eu aqui nem consegui visitar os mais famosos de NY, casa de ferreiro o espeto é de pau.
bjks
É de facto uma exposição a não perder!
Jamais esquecerei a emoção de ver obras dos grandes mestres. Ver imortalizados pensamentos e comportamentos pelos olhos de seres geniais causa-me sentimentos e reflexões únicos.
As minhas crianças também não reconhecem os santos, Sam, rsss…
Bjos
Eu fui… é de arrepiar!
Sam, tb acho essas fases de “abertura de consciência” muito ricas. Penso que podemos estar entrando uma dessas fases hoje e torço para que se reflita imediatamente nas artes.
Tb AMO o MASP, fiz alguns cursos lá na época em que morei em SP, inclusive em alguns sábados haviam aulas abertas no auditório grande, e de graça – só se pagava o ingresso de entrada no museu. Eu, como aluna, nãoprecisava pagar. Tive uma professora que fora do horário das aulas promovia visitas guiadas ao acervo. Era fantástico. Fiquei com saudade e com muita vontade de ver essa exposição.
Beijo!
Re