Vidas Secas na USP
Postado em Artes, livros no dia 03/04/2009 |“Deve-se escrever da mesma maneira como as lavadeiras lá de Alagoas fazem seu ofício. Elas começam com uma primeira lavada, molham a roupa suja na beira da lagoa ou do riacho, torcem o pano, molham-no novamente, voltam a torcer. Colocam o anil, ensaboam e torcem uma, duas vezes. Depois enxáguam, dão mais uma molhada, agora jogando a água com a mão. Batem o pano na laje ou na pedra limpa, e dão mais uma torcida e mais outra, torcem até não pingar do pano uma só gota. Somente depois de feito tudo isso é que elas dependuram a roupa lavada na corda ou no varal, para secar.
Pois quem se mete a escrever devia fazer a mesma coisa. A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso; a palavra foi feita para dizer.”
Graciliano Ramos
A obra Vidas Secas, uma das mais importantes da literatura brasileira, tem 13 capítulos que se ligam pela repetição de motivos e temas como a paisagem árida, a zoomorfização e antropomorfização das criaturas, os pensamentos fragmentados das personagens e seu conseqüente problema de linguagem. Esta obra de leitura difícil, mas tão cobrada nos principais vestibulares do país, é tema da nova exposição do Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo, o IEB/USP, na mostra O círculo e as linhas tortas – Vidas Secas. Com entrada gratuita, a mostra fica em cartaz até dia 30/06/2009.
Com a ajuda da exposição o livro, que completou 70 anos em 2008, ganha uma análise facilitada, mas não menos profunda. O objetivo da exposição é tornar público todas as etapas de produção de Vidas Secas. expondo fotos, documentos, manuscritos e diferentes edições do livro. Será possível ainda entender melhor a maneira pela qual Graciliano Ramos criava suas obras e alcançar o que se diz no texto abaixo (do site Para Ler e Pensar):
“Graciliano Ramos é, na maioria das vezes, rotulado de regionalista por críticos que vêm na sua obra, apenas o pano de fundo onde vivem os seus personagens. Porém, as suas publicações, nos tem revelado que muito mais que um simples devaneio pelo mundo dos excluídos e abandonados à própria sorte, todo o seu trabalho, nos mostra quão necessário é tomarmos conhecimento de como vivem nossos irmãos nordestinos, e outros tantos irmãos sertanejos, de pele curtida pela inclemente seca, e maus tratos da região.”
Uma curiosidade: o alagoano Graciliano Ramos (que viveu de 1892-1953) estudou em Maceió mas não chegou a cursar faculdade alguma, muito embora tenha deixado obras-primas como Memórias do Cárcere, São Bernardo e Vidas Secas. Seus personagens Fabiano, Baleia e Sinhá Vitória são retratos fundamentais da crueza da realidade nordestina nos anos 30.
Serviço:
- O que: O círculo e as linhas tortas – Vidas Secas de Graciliano Ramos
- Quando: até 30/06/2009, de segunda à sexta, das 9h às 18h; aos sábados, das 10h às 16h
- Onde: Instituto de Estudos Brasileiros (av. Prof. Mello Morais, nº 140, Cidade Universitária, São Paulo, SP)
- Quanto: gratuito
Auto-retrato aos 56 anos
Nasceu em 1892, em Quebrangulo, Alagoas
Casado duas vezes, tem sete filhos
Altura 1,75
Sapato n.º 41
Colarinho n.º 39
Prefere não andar
Não gosta de vizinhos
Detesta rádio, telefone e campainhas
Tem horror às pessoas que falam alto
Usa óculos. Meio calvo
Não tem preferência por nenhuma comida
Não gosta de frutas nem de doces
Indiferente à música
Sua leitura predileta: a Bíblia
Escreveu “Caetés” com 34 anos de idade
Não dá preferência a nenhum dos seus livros publicados
Gosta de beber aguardente
É ateu. Indiferente à Academia
Odeia a burguesia. Adora crianças
Romancistas brasileiros que mais lhe agradam: Manoel Antônio de Almeida, Machado de Assis, Jorge Amado, José Lins do Rego e Rachel de Queiroz
Gosta de palavrões escritos e falados
Deseja a morte do capitalismo
Escreveu seus livros pela manhã
Fuma cigarros “Selma” (três maços por dia)
É inspetor de ensino, trabalha no “Correio do Manhã”
Apesar de o acharem pessimista, discorda de tudo
Só tem cinco ternos de roupa, estragados
Refaz seus romances várias vezes
Esteve preso duas vezes
É-Ihe indiferente estar preso ou solto
Escreve à mão
Seus maiores amigos: Capitão Lobo, Cubano, José Lins do Rego e José Olympio
Tem poucas dívidas
Quando prefeito de uma cidade do interior, soltava os presos para construírem estradas
Espera morrer com 57 anos.
Sam @samegui Shiraishi
Mãe, jornalista e blogueira no @avidaquer, hub multiplicador de cultura e conhecimento. Paranaense de alma nipônica morando na Mooca, apaixonada por gente.





Esse vou mandar pro papi. Ele adora Graciliano.
Adorei a comparação com as lavadeiras… Um criador famoso – Eric Nice, se não me engano – dizia que escrever é transformar um São Bernardo num galgo…