Das “marcas” ligadas à educação e o anacronismo do vestibular

Postado em Carreira e dinheiro, Comportamento, todos pela educação no dia 28/11/2011 |

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Neste domingo, logo cedo, li este tuíte:

“Boa sorte a todos os jovens que prestarão Fuvest hoje. Vcs tem minha solidariedade. Que um dia não precisemos mais desse funil iníquo. o/”

Como crítica de certos detalhes do atual modelo educacional e, acima de tudo, do processo competitivo que se cria cada dia mais cedo nas crianças, buscando um resultado “imediato” (das notas e da “posição do ranking”) que só se completa de fato com o sucesso num bom vestibular (este também com uma boa colocação), não resisti e comecei um longo papo com a autora do microtexto de boa sorte aos vestibulandos.

Em primeiro lugar ponderei que a Fuvest é um funil relativo. Vejo jovens que querem “o melhor’ viajarem para fazer vestibular aqui e isso tira um pouco da “realidade” do processo, que deveria atender prioritariamente aos “locais”, não acham? Eu creio que sim, porque são jovens criados sob a filosofia educacional que reforça a “marca” e não o “pertencimento”, assunto sobre o qual eu reflexiono muito aqui em Sampa. As pessoas movem mundos e fundos para colocar o filho “na escola certa” para a USP desde cedo, quando deveriam focar em criar uma relação de construção com as escolas e de cidadania com a educação do filho, que, no mundo ideal, estaria se formando para ser um cidadão e não simplesmente alguém com bom diploma para vencer processos seletivos (públicos ou privados).

Pode ser utopia, mas creio que se a gente educasse para pertencer e construir colaborativa e coletivamente uma sociedade melhor, as pessoas se fixariam, sem cortar as asas do conhecimento e a sede do saber, mas cresceriam com objetivos maiores do que ter esta ou aquela marca impressas no diploma.

Mas quem sou eu? Há anos discuto o excesso de gente com curso superior que nem sabe o que queria fazer, mas entrou aos 17! Há alguns anos escrevi um texto num blog colaborativo no qual era colunista e o texto “bombou” de comentários. O título tinha grande afinidade com a reflexão de hoje – algo como Por que decidir aos 17 o que se quer fazer pelo resto da vida – e o fiz na defesa do filho de um conhecido que queria que o filho, que recém completara 17 anos e concluía o ensino médio, entrasse “o quanto antes” na faculdade de Administração, seguindo os vitoriosos passos do pai. Faz tanto tempo que o jovem já se formou na faculdade e, pelo que sei, tem sua própria empresa, numa carreira promissora e empreendedora. Mas ainda tenho aqui com meus botões a necessidade de que nossa sociedade rediscuta a ansiedade com o diploma “o quanto antes e a qualquer custo“.

Na conversa de ontem pelo Twitter, minha interlocutora citou o “bacharelado interdisciplinar” com o qual simpatizo, mas entendo que, até para esta alternativa funcionar bem, a criança tem que se formar como ser, não como uma “peça incompleta” até que cumpra o ritual de passagem do vestibular/diploma.

Sempre converso com pais, de crianças ou adolescentes, que me pedem conselhos sobre escolas e metodologias de ensino. Noto nas conversas esta ansiedade com o futuro ligada à mítica de passar no vestibular, em geral sem reflexionar as reais (e boas) qualidades que a criança sempre demonstrou, focando neste “passe mágico” para uma vida melhor.

Visão anacrônica!

A busca pelo melhor diploma não é mesmo uma visão de um Brasil recém saído do império, tateando no escuro para refazer o status dos ricos? Quando acabou o coronelismo e as capitanias, o filho rico teria que “se diferenciar” com um diploma, sendo doutor. Quando escrevi sobre o luxo como algo que poucos têm e por isso é desejável pensei muito nesta relação das marcas na educação.

Ok, na teoria é fácil, mas como você reagiria se fosse o seu filho?

Aqui em casa, embora distantes do vestibular, temos nossa estratégia. Se ainda nos falarmos por aqui você poderá comprovar que não haverá pressão para faculdade, queremos que eles se ocupem de forma positiva, aprendam, ensinem e aí então se encaminhem para o trabalho. Se escolherem uma área que exija diploma, apoiaremos, mas sem insanidade com marcas educacionais.

P.S. Na minha coluna sobre Economia Doméstica no hotsite “Investe em vc” falo um pouco disso em cada texto. Procuro enfatizar que não se deve contrair dívidas e sofrer financeiramente para ter uma vida confortável e sim buscar sonhos reais e pessoais, sem se deixar levar pela ansiedade coletiva. O vestibular da Fuvest é um exemplo disso.

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Sam @samegui Shiraishi

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Mãe, jornalista e blogueira no @avidaquer, hub multiplicador de cultura e conhecimento. Paranaense de alma nipônica morando na Mooca, apaixonada por gente.


27 Responses to “Das “marcas” ligadas à educação e o anacronismo do vestibular”

  1. Não pude deixar de pensar no sofrimento de um colega de trabalho. O filho é ótimo aluno de exatas, tem um boletim repleto de notas 10 em química, física e matemática e quer cursar engenharia de produção na melhor faculdade pública do rio de janeiro. Tentou a PUC também, mais para testar o desempenho, pois não poderia pagar. O problema é que o garoto é um desastre em História. Em 10 questões, acertou 3. O garoto está buscando outras opções, inclusive bolsa de estudos no exterior, mas o pai não aceita e diz que não vai permitir, pega o telefone e esculhamba a coordenadora pedagógica da escola, tem crises de fúria e depressão. Ele se descontrola quando me escuta ao telefone discutindo História com minha filha, e nós fazemos isso porque adoramos História. tanto que a prova sobre Grécia foi no início do ano e a gente ainda conversa "em grego". Não sei o que minha filha vai querer fazer e não sei se ela vai pra faculdade. Eu não fui, o pai não foi, os avós não foram, a gente quer que ela vá mas ninguém aqui soube o caminho das pedras.

  2. Tânia says:

    Oi Sam!
    Excelente post!
    também acho no mínimo precipitado alguém ter que escolher uma profissão para o resto da vida aos 17 anos…
    Abraços e saudades.

  3. @Teo creio que pensamos parecido, foi nesta linha (crítica) meu post http://t.co/fIPi0Qi2

  4. @CaioMelo_ triste e desnecessário né? Educar é muito mais que isso. Se puder, depois comente lá http://t.co/fIPi0Qi2

  5. Telma Maciel says:

    Quando entrei na faculdade (aos 26), me vi como uma das mais velhas na turma. Acaba que no final do curso eu era realmente a mais velha, rs. Com tudo o que passei com as pessoas no curso, algumas com meses e outras com quase 10 anos de diferença, concluí que não é certo colocar um adolescente de 17 anos que não sabe o que quer da vida na faculdade só pra ter um diploma.
    Eu vi: pessoas que acharam que o curso de Design Gráfico era pra aprender a desenhar; gente que estava ali pq o pai mandou (e pq era uma faculdade relativamente barata); gente q ganhou uma bolsa de estudos e queria fazer um curso ‘fácil’ pra ter um diploma e gente que já trabalhava na área por conta própria e queria o diploma pra ganhar mais dinheiro (mas cometia tanto erros mais que primários, q era inacreditável!)
    Faculdade deveria ser para quem já sabe o que quer da vida. Uma coisa que falei por mto tempo e defendo até hoje é a crianção de um curso após o Ensino Médio. Algo como: acabou o ensino médio? Agora vem pra um curso onde vc vai ter noção de exatas, humanas, biológicas, tecnológicas etc… E então a pessoa tem lá 1 semestre de conhecimentos gerais de cada área e uma explicação das profissões e mercados. É como vc disse, uma utopia, mas acho que isso ajudaria mtos adolescentes indecisos profissionalmente!
    Beijão

  6. @gyanzzelotti o texto já está no ar, ficarei honrada com sua "visita" http://t.co/fIPi0Qi2

  7. No blog hoje: Das "marcas" ligadas à educação e o anacronismo do vestibular http://t.co/5WvMNnfF

  8. Um papo com@sibelefausto sobre o funil do vestibular virou post no @avidaquer. Convido-os à leitura e critica http://t.co/TXL4Wn6d #fb

  9. Rodrigovk says:

    Sam, eu concordo em muita coisa, principalmente que na maioria das vezes um adolescente de 17, 18 ou 22 anos não consegue definir o que vai fazer da vida.

    Mas uma coisa que não foi considerada é que essa é muito diferente morar em uma cidade grande e morar no interior. Em São Paulo, a escolha consciente de não fazer vestibular logo após o ensino médio ainda permite que o jovem aproveite de várias oportunidades que “a cidade” oferece, seja em empregos, cultura ou cursos.

    No interior, para muitos a faculdade é uma oportunidade de sair da cidade, conhecer outros mundos, outras culturas. Se for para ficar, o jovem quase sempre só tem como outra alternativa trabalhar no negócio dos pais.

    No seu texto você fala de criar pessoas, criar raízes. Mas acho importante também que um jovem possa se descobrir. E para se descobrir de verdade, é preciso sair da asa dos pais, pagar conta, apanhar um pouco da vida, viver outras coisas. Para mim, e muitos amigos, “ir para a faculdade” foi a oportunidade para sair de casa, conhecer outra cidade, e principalmente, conviver com uma galera de backgrounds completamente diferente.

    No fim, escolhi jornalismo justamente por ser uma carreira muito ampla. Nunca quis ser repórter, mas sabia que queria trabalhar com comunicação. Deu certo para mim.

    Concordo que se o jovem não souber o que quer fazer, obrigá-lo a fazer uma faculdade, principalmente se for “aquela perto de casa” é péssimo. Mas se não for para fazer faculdade, que vá se descobrir, em uma viagem, em outra cidade, em um ou vários empregos, e não assistindo TV.

    Talvez um dos problemas invisíveis aqui é a estrutura das faculdades, com cursos muito fechados e totalmente independentes uns dos outros. Na Unesp, onde estudei, fazer aulas de outros cursos era praticamente impossível. Mudar de área, então, só fazendo vestibular de novo. Acabei fazendo aulas de outros cursos como curioso, conversava com o professor e assistia extra-oficialmente.

    Talvez se o jovem pudesse se descobrir dentro da faculdade, já resolveríamos, pelo menos em parte, o problema aqui.

    Desculpe-me pelo comentário gigante. :)

  10. Noris says:

    Eu entrei na faculdade aos 17, porque consegui bolsa no Prouni. Sempre quis trabalhar com comunicação, então minhas opções eram Jornalismo e Publicidade, como só passei em Publicidade, decidi fazer e conhecer mais o curso… lá dentro! Foi um baita risco, porque não sabia nada de publicidade, fiz pensando no jornalismo, que se quisesse fazer depois seriam praticamente só mais 2 anos… Foi uma escolha muito infantil, mas que, ufa, deu certo.

    Também sofri com a pressão da família, porque meu pai e minha irmã fizeram Administração e queriam que eu fizesse a mesma coisa… Foram muitas brigas e ainda hoje surgem alguns comentários chatos na mesa de jantar. Mas faço o que amo :-)

    Ótimo artigo, como sempre. Beijo!

  11. Assino embaixo deste post da @samegui sobre educação, vestibular e os erros que estamos cometendo: http://t.co/hu5VO3WQ

  12. :-) RT @tcordeiro: Assino embaixo deste post da @samegui sobre educação, vestibular e os erros que estamos cometendo: http://t.co/YykkhsFU

  13. Vale a reflexão. -> Post muito bom da @samegui sobre educação, vestibular e os jovens: http://t.co/ftrqhWp6

  14. :-) comenta lá RT @rodrigovk: Vale a reflexão. -> Post muito bom da @samegui sobre educação, vestibular e os jovens: http://t.co/YykkhsFU

  15. Cinara Moura says:

    Curti essa reflexão da @samegui "Das marcas ligadas à educação e o anacronismo no vestibular" http://t.co/dYyKt5LD

  16. neli souza says:

    Ótimo texto para refletirmos o processo escolar/educativo…A noção de "pertencimento" me encanta…Das http://t.co/AoS7mdln via @avidaquer

  17. Cinara Moura says:

    Achei o texto incrivelmente lúcido, principalmente no quesito “ensinar a ser”. Há um tempo uma grande amiga escrever esse post sobre o vestibular: http://danimiranda.posterous.com/a-tem-que-mudar-b-tem-que-evoluir-c-tem-que-a

    Acho que vale a leitura e tem a ver com a temática =)

    P.S.: parabéns pelo blog, sempre acompanho os posts e geralmente me identifico com a abordagem!

  18. RT @samegui No blog hoje: Das "marcas" ligadas à educação e o anacronismo do vestibular http://t.co/fHTwPq8Q

  19. UIA! RT @samegui Um papo c/ @sibelefausto sobre o funil do vestibular virou post no @avidaquer: http://t.co/IBkPBBYc

  20. Das "marcas" ligadas à educação e o anacronismo do… http://t.co/td45FDQG #Carreira_e_dinheiro #Comportamento #todos_pela_educação

  21. Das "marcas" ligadas à educação e o anacronismo do… http://t.co/td45FDQG #Carreira_e_dinheiro #Comportamento #todos_pela_educação

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  23. Das "marcas" ligadas à educação e o anacronismo do… http://t.co/td45FDQG #Carreira_e_dinheiro #Comportamento #todos_pela_educação

  24. daniel sousa says:

    Das "marcas" ligadas à educação e o anacronismo do… http://t.co/td45FDQG #Carreira_e_dinheiro #Comportamento #todos_pela_educação

  25. daniel sousa says:

    Das "marcas" ligadas à educação e o anacronismo do… http://t.co/td45FDQG #Carreira_e_dinheiro #Comportamento #todos_pela_educação

  26. “@avidaquer: Das "marcas" ligadas à educação e o anacronismo do vestibular http://t.co/WTKpx1QE #Carreira_e_dinheiro #todos_pela_educação”

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