Umbiguismo de mão dupla
Postado em Cultura Web 2.0 no dia 04/02/2009 |Há anos acompanho o Digestivo Cultural. Ele tem um formato de transição entre o site e o blog (o que muito me agradava quando o descobri) e tem um conteúdo focado em cultura, com excelentes autores que, mesmo sendo bons, não “conversam” com o leitor como quem sabe tudo. É efetivamente uma conversa.
A mesma conversa eu ouço às vezes no Saia Justa, programa feminino da GNT que, admito, é uma insanidade de mulheres falando sobre tudo-junto-ao-mesmo-tempo. Lembra demais bons momentos conversando com amigas e, na falta do tempo para happy hour, ele mata a saudade que sentimos dos momentos descontraídos e de jogar fora papo inteligente.
E hoje tem entrevista da Lúcia Guimarães (que passou de única voz feminina do Manhattan Connection para mais uma voz no Saia Justa) no Digestivo. Pioneira que não gosta do título, a jornalista fluminense que esteve à frente de grandes veículos no Brasil e mora em NY há mais de duas décadas, agora mantém um site-blog onde publica seus textos. Na entrevista concedida a Julio Daio Borges pode-se rir, discordar (como fiz abaixo) e concordar com tiradas como “depois que o Jô Soares desistiu da inteligência na telinha, o Manhattan virou o nosso último refúgio” (excerto da pergunta de Júlio).
A visão de Lúcia sobre os blogs e os sites me lembrou uma conversa animada que tivemos outro dia na Editora Abril, eu, Renata Deos e Manoel Fernandes com o diretor do núcleo ao qual está ligado o MdeMulher, Demetrius Paparounis, que leu alguns blogs da rede e nos perguntava no que alguns eram diferentes do jornalismo praticado em redações. A diferença está na autorreefência, creio. Lúcia levanta este tema criticando colegas jornalistas que ela respeitava e, ao se inserirem nos blogs, se perderam “numa maionese de autorreferência embaraçosa”. Apesar de chamar blog de mídia (mas vejam, mídia social e colaborativa), nunca deixei de assumir que meu blog é um diário pessoal. E talvez neste “pessoal” esteja a diferença entre o site e o blog que ela tanto enfatiza ao fugir da denominação blog para seu www.luciaguimaraes.com. Ela afirma na entrevista que
“quando você confunde a liberdade permitida pela tecnologia com o simples abandono dos critérios tradicionais, o blog se reduz a um filho bastardo do jornalismo.
O que é o jornalismo senão uma narrativa? Se você tem uma boa história para contar, se sabe contá-la e, melhor ainda, se ao ler a história a pessoa faz ligações entre o fato e o mundo à sua volta, está selado o pacto com o leitor.
Este pacto não dura se for baseado em ataques de narcisismo pueril, com histórias de gatinhos de estimação e o umbiguismo geral que é tão contagioso neste meio. O umbiguismo é de mão dupla e eu não o alimento quando me correspondo com leitores do site.”
Perceberam a diferença?
Isso vale para quem quer fazer jornalismo nos blogs, mas, convenhamos, a cada dia este grupo se reduz e se torna um nicho. Ainda bem que eles existem, pois nós, que fazemos blogs pessoais sem qualquer constrangimento, podemos continuar lendo seus textos jornalísticos enquanto blogamos sobre o que nos vêm à mente numa boa conversa descontraída e convidativa.
P.S. @luzdeluma falou em parte deste tema (jornalismo e blog) em Blogar é aceitar chute na bunda?
Sam @samegui Shiraishi
Mãe, jornalista e blogueira no @avidaquer, hub multiplicador de cultura e conhecimento. Paranaense de alma nipônica morando na Mooca, apaixonada por gente.





Sam, muitos blogueiros e jornalistas ainda confusos, tomam pra si algo que deveria fortalecer as respectivas categorias. Blogar como jornalista e blogar como ‘blogueiro’ existe muita diferença. Daí os blogueiros cobram mais responsabilidade dos jornalistas e os jornalista idem.
Eu coloquei blogueiro entre aspas, porque ser blogueiro não é ter um blogue simplesmente. Um jornalista pode ser blogueiro, mas um blogueiro não pode se comportar como jornalista, se não tiver formação para isto. Cada um cada um respeitando os seus lugares.
Mas não gosto de jornalistas editores de sites que o travestem de blogue e saem por aí difamando blogueiros, colocando todos no mesmo saco.
Estes blogueiros jornalista de serviços, invariavemente ‘vendem noticia’ e se estabelecem na internet divulgando noticias falsas ou tendenciosas. Essa figura se parece com o velho jornalista achacador da época do Assis Chateabriand e da Revista Cruzeiro. Mudou o meio apenas e o cinismo.
E a gente segue o bonde, não leva desaforo pra casa. Este fica no blogue. Ah, estou dizendo isto porque os ‘fãs’ da Rosana já se manifestaram.
Boa semana!! Beijus
Ola’, Sam! Em primeiro lugar, gostaria de agradecer pelas suas constantes referencias, sempre elogiosas, ao Digestivo. (Tanto aqui quanto no Twitter.) Em segundo lugar, agradeco tambem pela sua compreensao do Digestivo (como iniciativa), no primeiro paragrafo do seu texto. E’ isso mesmo que tentamos fazer: “conversar” e acompanhar, na medida do possivel, os novos formatos que vao surgindo. Em terceiro lugar, acabei de repassar para a Lucia. Tenho certeza de que ela vai gostar e conhecer, atraves de voce, um outro lado da blogosfera, igualmente pensante! Abraco forte, continue seu bom trabalho, Julio
Blog é uma ferramenta. Um meio. A linha editorial, se é que existe, é definida pelo seu dono. Ele. Apenas ele.
Há uma mania de ditar as regras que me incomoda demais.
Pessoal ou jornalístico, sobre política ou sobre celebridades, não importa. O blog é uma ferramenta para a pessoa se expressar. E cada um faz isso da forma que quiser. Se tudo for conduzido de forma ética, não há qualquer problema.
Quase desisti de meu blog diversas vezes. Insistia em dar ouvidos àqueles que dizem que o caminho é este ou aquele. Está cheio de gente assim em listas de discussão e afins.
Ainda bem que não fiz isso.
Por isso, discordo de parte da opinião da Luma. Um jornalista é uma pessoa como qualquer outra. Tem direito a opinião, tem sua vida pessoal. Por que não pode ser um blogueiro como qualquer outro? Idem ao blogueiro. Novamente: se há ética e responsabilidade, um blogueiro pode atuar como jornalista. Aliás, mais do que jornalista. Um comunicador.
Escrevi um monte, apaguei tudo…
Porque o que eu queria dizer é que Blog é Blog, Jornal é Jornal e ponto.
Não entendo essa implicância com o tom extremamente pessoal dos blogs…
Blog não é jornal; não presume que siga as regras do jornalismo, apesar de o conteúdo às vezes andar pelas terras do jornalismo.
O que acho fantástico dos blogs é ouvir o blogueiro contar sobre seus gatinhos. Se for um jornalista, na redação ele pode ser sério, mas no blog ele pode desabafar, falar o pensa, falar sobre o que quer. Essa é a graça. Senão é mais uma coluna…
Ale, eu disse da responsabilidade que todos devem ter com as opiniões que expressam. Não disse em momento algum que jornalista não pode ter blogue ou ser um blogueiro ‘normal’. Discordando de você, blogueiro não pode se comportar como jornalista se não tem credencial para isto. Não sou jornalista, mas não gostaria de ser clinicada, por exemplo, por um ‘médico’ sem diploma.
O que o blogueiro tem que entender, é que existem limites e as ‘duas categorias”: blogueiros e jornalistas, são bem distintas.
Caros,
Grata pelas referências e opiniões. Quero apenas deixar clara a minha opinião, para não parecer bedel de blog.
Quando me refiro ao excesso de auto-indulgência, falo de jornalistas – e não bloggers de outras searas – que acham que a sua rotina mais prosaica é potencialmente fascinante para o leitor, como a mãe orgulhos que insiste que a filha cante para as visitas entediadas na hora do jantar.
Não estou propondo a dissociação entre jornalistas e o que eles escrevem.
Um repórter que está em tratamento para câncer e vai cobrir uma inovação em quimioterapia tem todo o argumento para referir-se à própria experiência e se colocar na história.
Esta conversa vai adiante, está ligada ao narcisismo específico de cada cultura.
Oi Sam,
Difícil refletir sobre o tema, hein? Antes mesmo de entrar na faculdade, eu tinha um blog pessoal, onde escrevia tudo que passava por minha cabeça – coisa que me arrependi bastante depois. Fiquei um bom tempo por fora desse universo até que resolvi criar o Velocidade.
O Velô já tem a proposta de ser mais jornalístico, imparcial e ser um meio alternativo de informação para as pessoas que gostam do assunto – e querem fugir dos portais. Até o trato mais de uma maneira “comercial”, com regularidade de posts, equipe e novidades sempre.
Talvez no meu próximo blog – que está quase lá, né? – eu fale com uma visão mais pessoal. Tem horas que a gente precisa compartilhar o nosso cotidiano, e é aí que mudamos de lado.
Mas uma coisa é fato: jornalista pode ser blogueiro, mas nem todo blogueiro pode ser jornalista. No mínimo, tem de passar 4 anos na sala de aula antes. Claro que na minha humilde opinião.
O mais bacana da internet é isso, o Julio e a Lucia puderam vir aqui dialogar com a dona do blog, com os leitores. É tão bom ver isso.
Sempre achei muito esforço alguém ter um blog e algum dia não falar da vida pessoal, pois mesmo quando é de nicho, fala sobre algum produto que comprou. Blog é basicamente opinião.
É a velha história de que estamos cansados de falar, Sam: o pessoal continua misturando o meio com a mensagem. O blog é apenas o suporte: pode ser qualquer coisa. Umbiguístico, jornalístico, bundístico, privado, anônimo, temático, fofucho, com opinião, sem opinião nenhuma, em cima do muro, maria vai com as outras, etc etc etc. É apenas o suporte: nele cabem muitas mensagens possíveis. Como o papel, aceita qualquer coisa. Sobre o que é esse “qualquer coisa” é que viriam debates éticos e tudo o mais, mas aí é outra história.
Beijos do Ale.
E o revolucionário acaba se tornando reacionário…
Mas a transformação é contínua.
Vão-se os suportes, ficam as idéias.
que legal: Lucia Guimarães (Manhattan Connection/Saia Justa) comentou o post que fiz falando da entrevista dela
http://bit.ly/TkO
Sam querida! Vim aqui participar e ler tudo q tanta gente tá comentando….
Adoro a Lucia Guimaraes, acho ela incrivel! eu sempre falo I ‘wannabe’ like Lucia!!! ela é musa!!! Acredito q o comentário dela foi sensacional! q privilégio tê-la no seu blog!
Eu sou uma pessoa cansada do jornalismo, já te disse! Faço questão de opinião e da cara pessoal do meu blog. Acho blog mais que ferramenta..acho q é relacionamento, puro diálogo.
A @srtabia arrasa quando diz: o Julio e a Lucia puderam vir aqui dialogar com a dona do blog, com os leitores. É tão bom ver isso.
bjssss
Interatividade, é um princípio basico da internet, isso, já, antes da web 2.0, não dava para conceituar internet, sem interatividade. Com o advento da web 2.0, esse elemento passou a ser imprescindível, a falta de interatividade passou a ser um defeito do site ou blog.
O Blog, sendo´, na sua origem, um diário virtual, apresenta esse formato de diário virtual, permite relatar experiência de seu dia-a-dia, sem exageros.
Algumas celebridades, ainda hoje fazem isso,. Se o blog é temático, ou de variedades, aí, é bom “colocar as barbas de molho”.
[...] passada acabei lendo, graças a um post da Sam Shiraishi, uma entrevista da Lúcia Guimarães (jornalista da qual sou fã) publicada no Digestivo Cultural e [...]
RT @SandraTurchi: A internet e os negócios – Muitos empresários não sabem ao certo o que a web pode lhes proporcionar http://migre.me/fH …
RT @anthrax85: RT: @augustocf RT @pelogia INSANO INSANO INSAAANO!!!!!! A notícia mais bizarra q li em TODOS os tempos http://migre.me/fH …