Um toque na estrela
Postado em livros no dia 27/06/2009 |Adoro romances. Leio estudos, biografias, livros de receitas, revistas e jornais, mas efetivamente o que me apraz é ler romances, entrar na história de outrem. E vive-la como se fosse a minha.
Estou experimentando isso na leitura de Um toque na estrela, de Benoîte Groult (Editora Record). Ao ganhar o livro, na verdade uma provocação de um colega jornalista, senti simpatia pelo belo azul da capa e empatia imediata pela senhora da contracapa.
Só depois li que o livro tinha vendido 450 mil exemplares na França, onde a tal senhora é uma figura conhecida, uma das mais importantes feministas de sua geração – nascida em 1920, foi uma das primeiras vozes a defender os direitos das mulheres em seu país.
A linguagem, ácida, não deixa de mostrar ternura ao nos apresesentar a realidade na qual se insere a personagem prinicipal, Alice, uma jornalista que se recusa a se aposentar da revista onde trabalha há décadas e onde é considerada aux concours por todos. As vicissitudes de sua vida ao lado do esposo Adrien e as histórias dos filhos Marion e Xavier, mesclam-se aos relatos sobre a percepção do envelhecimento.
Identifiquei-me de cara, não por ela ser mãe, mas porque eu já decidi, desde criança, que vou ficar para semente. Sempre digo que vou passar dos cem anos e esta é uma condição que me imponho na vida. Mas, ao ver como a personagem Alice, que poderia me dizer “eu sou você amanhã” em tantas coisas, me deparo com a realidade que já sou uma senhora estranha e anacrônica para muitos dos meus pares atuais.
“Sabe que, embora eu seja muito jovem, antigamente eu era mais jovem ainda? O que isso significa? Certamente existe aí alguma coisa terrível.”
Afirma Moira, o destino, citando Henri Michaux no capítulo 1.
Notar que a escritora é da “geração que não queria mais envelhecer, depois de tantos séculos em que os papéis nunca mudavam”. Você já pensou sobre isso? Que os nascidos no século XX viram o mundo mudar de tal forma que conheceram a descoberta da adolescência, a valorização da infância e agonizam conscientes de que a velhice é uma realidade inevitável e longa?
Até ler os relatos da autora, transcritos através das memórias de Alice, eu jamais tinha me dado conta de que a mudança fora tão forte e que pegara uma certa geração assim, de sopetão, sem tempo para respirar em nenhuma das etapas do caminho.
Apesar de ler que “dizer o que é a velhice é como tentar descrever a neve para quem vive nos trópicos“, Groult conseguiu me fazer experimentar parte dos dissabores e dos sabores da terceira idade. E eu gostei, sabem? Ri alto e gostoso ao ler sua luta com o computador e lembrei da Rolley Flex e do toca-discos (de até 78 rotações) da minha avó ao ler sobre sua Remington preta e dourada que virou enfeite do hall.
Lembrei de tantos objetos que minha amiga Thereza, uma vizinha de quase 80 anos que foi um oásis intelectual para mim na minha chegada a São Paulo, guardava e dos quais teve que se desfazer ao mudar de apartamento, rendendo-se à dificuldade de viver sozinha sem poder contar com a boa articulação na bacia. Uma mulher que sempre trabalhou, dirigiu seu carro, comandou sua família e sua vida e repentinamente – nem tanto, mas para ela se viu vencida pelo próprio corpo.
Fica a pergunta que me pareceu a síntese da reflexão:
“Como será quando esses velhos sobreviverem até os 120 anos, coisa que não vai tardar a acontecer?”
Sam @samegui Shiraishi
Mãe, jornalista e blogueira no @avidaquer, hub multiplicador de cultura e conhecimento. Paranaense de alma nipônica morando na Mooca, apaixonada por gente.





no blog: http://tinyurl.com/rdtw3e Um toque na estrela #familia
[...] de ler o post “Um toque na estrela” onde Sam comenta sobre o livro de mesmo nome escrito por Benoîte Groult (Editora Record), o [...]
Olá Sam, achei muito interessante o livro e comecei a comentar. Ficou tão grande que resolvi fazer um post e está lá no http://migre.me/2TCT
Passe lá para dar uma lida, ok!
beijinhos
Quando as pessoas chegarem a esta idade, sábios serão os que souberem tirar proveito de “ouvir a voz da experiência”. Muitos problemas serão poupados. Pois, o tempo é o melhor dos professores. Beijos.
Sam,
Quero sim, adoro desafios.
E pelo que li no seu post ela tem uma alma bem feminista, que tenho desde criança.
bjs
@editora_record publiquei no sabado minha resenha deUm Toque na estrela de Benoîte Grould. http://bit.ly/10xcOV #livro #familia]
[...] senti simpatia pelo belo azul da capa e empatia imediata pela senhora … fique por dentro clique aqui. Fonte: [...]
[...] Sair deste julgo social que se impõe sobre os negros (asiáticos, indígenas e nos EUA os hispânicos também) pode ser tão complicado quando viver nele – assim como ser mulher com direitos é ainda tão complicado para tantas de nós, visto que em países como o Brasil ganhamos direitos iguais aos dos homens há menos tempo do que houve a abolição da escravatura – é, livros como Mundos de Eufrásia (de Claudia Lage, que entrevistei aqui) e Um toque na estrela (Benoite Groult, que comentei aqui) [...]
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@deniserangel só acho q é tempo de algumas flores e sorrisos pq parte da luta já foi ganha. vc leu Um toque na estrela? http://ow.ly/1eYP6
RT @samegui: @deniserangel só acho q é tempo de algumas flores e sorrisos pq parte da luta já foi ganha. vc leu Um toque na estrela? http://ow.ly/1eYP6
RT @samegui: @deniserangel só acho q é tempo de algumas flores e sorrisos pq parte da luta já foi ganha. vc leu Um toque na estrela? http://ow.ly/1eYP6
@samegui Anotado. E esta mudança também é motivo de reflexão, certo? http://ow.ly/1eYUt
Terminei de ler o livro e diferentemente da idéia inicial ,não o vejo como um livro para a 3ª idade e sim contemporâneo. As personagens estão ao nosso redor, poderia ser a história secreta de uma parente ou vizinho, de pessoas que encontramos todos os dias. É envolvente, emocionante e descreve sofrimento e amor, não necessariamente nessa ordem ,mas mostra também um lado que todo mundo nega, o sincero absoluto ,ao ponto de não achar a menor graça em atitude totalmente infantis, no caso dela (Alice) em relação ao bisneto Valentin. Um amor incondicional pela irmã, único vínculo familiar da juventude, do amor pela filha como algo intocável, mas racional, ao ponto de não poupá-la do sofrimento pelo qual ela mesma passou….Gostei do livro……parece muito real..Beijos e DEUS te abençoe!
Um livro envolvente…….pense antes de lê……esqueça-o se for capaz…..