Um tapinha não dói
Postado em Blogagem coletiva, Mãe com filhos no dia 23/03/2009 |Quem se lembra desta música infame? Ela era moda no primeiro verão do meu filho e lembro de uma vizinha poucos meses mais velha do que ele que com apenas um aninho dançava este funk e fazia a “pose” (de cachorra) batendo nas nádegas. Era deprimente. Aquela menininha, de quem não tive mais noticias desde que mudei do prédio, era uma possível vítima destes tapinhas que não doem – mas deixam marcas na personalidade da criança para sempre.
Outro dia, num comentário num relato de Vida Real do Mãe com filhos (e que, claro, não publicamos), uma mãe aconselhava a outra assim:
“Não sou a favor de violência, mas uns tapinhas ás vezes são necessários…Não tapinhas que machuquem, mas “tapinhas morais”…Entende ?!?”.
Não, gente, não entendo! Entendo que qualquer relacionamento deve ser construído com base no respeito. E respeitar fisicamente a pessoa é um dos princípios disso. Instruo meus filhos a não aceitarem que as pessoas abusem fisicamente deles – e isso vai além de abuso sexual ou bullying, diz respeito a tudo. Precisamos ensinar nossas crianças desde cedo que agressão e carinho não são a mesma coisa e que eles não devem aceitar um pelo outro. É como aquele conto do Roberto Shinyashiki da Carícia Negativa, do livro A Carícia Essencial (que pode ser lido aqui). Na falta de carícias positivas, o ser humano passa a aceitar as negativas (agressão física, maus-tratos, xingamentos, etc) para não ficar sem nada.
Quando vejo casos absurdos, como o do bebê agredido pela patroa da mãe (e a mãe era babá na casa da agressora!), da menina torturada em Goiás e tantos outros eu percebo que uma forma de pensar é ensinar às pessoas que ninguém merece a agressão. Não sei se este trabalho de formiguinha que fazemos nos blogs funciona, se conversar e orientar as pessoas que trabalham para nós ajuda, mas é preciso persistir. E, na dúvida, acionar Conselho Tutelar e outros órgãos competentes.
E o que é o Conselho Tutelar?
Projeto de Lei do Senado Federal, PLS nº 5.172/90, ele nasceu como “um órgão administrativo, permanente e autônomo, não jurisdicional, tendo por finalidade o atendimento dos direitos da criança e do adolescente”. Mas vejam, a lei diz também que: “É dever da família, da comunidade, da sociedade em geral e do Poder Público assegurar, com absoluta prioridade, a efetivação dos direitos referentes à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária”.
Gosto de pensar no Conselho Tutelar como um “bedel” da sociedade. Sua não é atender os direitos, é zelar para que os que devem cumpri-los o façam. Por isso, como explica André Karst Kaminski no site Âmbito Jurídico, ”os conselheiros tutelares necessariamente não precisam ser técnicos, nem ter qualquer formação universitária ou curso superior, seu trabalho é zelar, é ter um encargo social para fiscalizar se a família, a comunidade, a sociedade em geral e o Poder Público estão assegurando com absoluta prioridade a efetivação dos direitos das crianças e dos adolescentes, cobrando de todos esses que cumpram com o Estatuto e com a Constituição Federal”.
Dados do Unicef informam que 80% das agressões físicas são causadas por parentes próximos, numa conta que sugere que de hora em hora morre uma criança queimada, torturada ou espancada pelos próprios pais. Estes dados internacionais não são desmentidos pelos nacionais, conforme mostra o Sistema de Informação para a Infância e Adolescência (Sipia), que concentra informações de denúncias dos Conselhos Tutelares de todo o país. Em 2007 a Sociedade Internacional de Prevenção ao Abuso e Negligência na Infância (Sipani) informava que 12% das 55,6 milhões de crianças menores de 14 anos são vítimas de alguma forma de violência doméstica por ano no Brasil – o equivalente à média de 18 mil crianças por dia.
Pesquisando sobre o tema, descobri também que o dia 04/06 é o Dia mundial contra agressão infantil. Quem sabe nesta data podemos fazer um belo movimento na blogosfera, numa blogagem coletiva e várias ações de adesão nas redes sociais? Quem se junta a mim nesta cruzada?
Artigos interessantes sobre o tema:
- Palmada não resolve e não há castigo corporal tolerável
- E o sociólogo não me convenceu do valor da lei da palmada #rodaviva
- Um tapinha não dói
- Lei Maria da Penha
- Delegacia de Mulheres (relato da minha experiência fazendo uma denúncia lá)
- Agressão verbal é uma forma de violência psicológica
- Blog Diga não à erotização infantil
- Aprendendo a prevenir: orientações para o combate ao abuso sexual
- Cotidiano violento: oficinas de promoção em saúde mental em Porto Alegre
- Atenção a vitimizadores sexuais, suas vítimas e acompanhantes no município de Florianópolis
- Lições de Gravelina: violência fatal contra a mulher
- IBGE Teen explica os diversos níveis de agressão contra a criança e traz estatísticas sobre violência corporal e violência econômico-social, como o trabalho infantil, com links para os temas em destaque
- Infância na mídia traz um resumo diário de notícias sobre crianças e adolescentes, publicadas em mais de 80 revistas e jornais brasileiros
- Site da Fundação Abrinq pelos Direitos da Criança e do Adolescente
- Notifações de maus-tratos contra crianças e adolescentes
Sam @samegui Shiraishi
Mãe, jornalista e blogueira no @avidaquer, hub multiplicador de cultura e conhecimento. Paranaense de alma nipônica morando na Mooca, apaixonada por gente.




Uma coisa é a surra que um pai dá para educar. Que é limitada, que não é feita com intuito de agressão e não carrega nenhum recalque por parte do mais velho. Essa, aplicada na hora certa, tem efeito psicológico positivo. E se não fosse assim, muita gente que teria levado um tapa da mãe ou do pai quando criança seria psicopata hoje em dia, o que não acontece.
Nunca apanhei dos meus pais mas, conheço gente que vez ou outra apanhou e nem por isso cresceu com problemas, aliás, pelo contrário, apanhou uma única vez ou duas e aprendeu a lição.
Já a surra violenta, desproporcional e carregada de ódio, bem, essa não educa absolutamente nada, daí eu concordo contigo.
O que não se pode élimitar o pátrio-poder e torná-lo negociável. Um pai que não impõe um mínimo de autoridade está sujeito a ser serviçal de uma criança mimada, e isso hoje em dia é extremanente comum. Canso de ver casais nas lojas, supermercados, etc… recebendo ordens de crianças que, não atendidas, geram aquele berreiro absurdo, a chantagem emocional que os pais babanas não conseguem conter.
Agora, é a tal coisa. Um pai que deixa um filho (qualquer filho, de 18 anos para baixo, pelo menos) achar engraçadinho o “tapinha não dói” e deixar o jovem agir desse jeito, não pode querer compensar os desvios morais da criança com surras e tapas, porque o mais desviado é ele mesmo, que deixa esse lixo imoral poluir a cabeça do filho desde tenra idade.
Sam Shiraishi Reply:
March 23rd, 2009 at 2:30 pm
@Fábio Max, não sou contra os limites, vc já deve ter noção disso. Mas acompanhei vários casos de agressão fisica repetitiva quando era adolescente e trabalhava como digitadora para minha mãe, que atuava como defensora pública na área de familia.
Embora seja necessário colocar limites (uma das obras que eu mais gosto em educação é da Tânia Zagury, que trata desta tirania dos filhos sobre os pais), é importante que esclareçamos os limites do respeito que a educação precisa ter.
Obrigado por opinar!
Outra interpretação para o tal do tapinha é fumar maconha. Só um tapinha, na verdade, é só um “traguinho”. Não sei o que é pior.
Sam Shiraishi Reply:
March 23rd, 2009 at 2:27 pm
@Zé, vc era meio criança no tempo desta musica… se fosse o “maresia, sente a maresia” do Lulu Santos e Gabriel O Pensador, tudo bem!
Embora a musica pudesse falar de maconha, as coreografias das “moças” e os documentarios que vi se referiam às preferencias sexuais (no caso, sexo coletivo com menores de idade no meio das festas funk) e não eram positivas não.
Usei a frase porque esta mãe era uma figura famosa pelas agressões à filha, do tipo que trancava a nenê com menos de um ano no quarto a noite toda (deixando duas mamadeiras na beira do berço) para ter mais liberdade com o marido no resto da casa. Triste, muito triste.
(e eu cheguei a avisar o Conselho Tutelar…)
Um tapinha não doi? Convite para refletirmos sobre as palmadinhas e debatermos a agressão a crianças no Brasil http://migre.me/cyt
ret @samegui Um tapinha não doi?Convite para refletirmos sobre as palmadinhas e debatermos a agressão a criançasnoBrasil http://migre.me/cyt
Eu me lembro dessa musiquinha e da coreografia ridícula.
Adorei seu post.
Conte comigo.
Bjus
Um tapinha não doi? Reflexão e convite para debater sobre a agressão às crianças ( por @samegui ) http://migre.me/cyt ( excelente!)
Olá Sam,
Que bom que te encontrei no DiHITT.
Excelente post, e as sugestões de leituras são maravilhosas.
Este assunto tem mesmo que estar sempre em evidencia. Falar sobre ele nunca é demais!
Parabéns!
Com certeza deixa marcas não só na criança que apanhou , mas nos que convivem com ela também. Meus irmãos apanharam muito, e, até hoje, sofro muitíssimo quando me lembro. Nunca consegui perdoar meu pai por isto, embora o ame. Hoje não admito nenhum tipo de violência física a criança.
Pode contar comigo na postagem.
beijo, menina
[...] e por isso eu hoje considero que qualquer castigo corporal é errado. Da mesma forma, como já escrevi há um tempo, a agressão verbal é igualmente cruel e degradante, pois, como outros castigos, se menospreza, se [...]
@ladyrasta como prometi, tá aqui meu texto que cita o Conselho Tutelar:
http://www.samshiraishi.com/um-tapinha-nao-doi/
pelo amor de Deus tenho uma filha de14a nunca dei um tapa mas ela naum sabe o limite do sim ou naum faz o q quer morava com avo pra eu trabalha fugiu da avo fugiu de mim fugiu do pai e fica numa favela o tempo todo meu medo saum as drogas e traficantes o que eu faço naum quer estudar trabalhar naum quer nada me ajude e naum posso puni-la
[...] Você sabe para que serve o Conselho Tutelar e como deve acioná-lo se for preciso? [...]
[...] o que é bom e construtivo. E se percebemos situações de opressão (abuso ou agressão), podemos informar o Conselho Tutelar, ajudar a orientar (ou, se for o caso, punir) os envolvidos e pensar coletivamente como ajudar as [...]
[...] Um tapinha não dói [...]
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