Ukiyo-e

Postado em Pintura no dia 04/01/2009 |

O mar de Satta por Suruga, da série Fuji Sanjuu-Rokke  

O mar de Satta por Suruga, da série Fuji Sanjuu-Rokke

No post anterior falei da exposição Japão Mundos Flutuantes e me referi en passent ao Ukiyo-e.  A técnica, que literalmente pode ser traduzida por “retratos do mundo flutuante” é uma estampa japonesa desenvolvida no Japão. Sempre me lembrou vagamente a xilogravura, porque a técnica foi difundida através de pinturas executadas com o auxílio de blocos de madeira usados para impressão entre os séculos XVIII e XIX (final do período Edo, a fase “medieval” japonesa, que durou de 1603-1867). 

Os temas teatrais eram os mais frequentes do ukiyo-e, o que marcou a alteração de seu nome original (retratos do mundo triste) para retratos do mundo flutuante, como de fato é o universo do entretenimento. Edo era o nome antigo de Tóquio e a forma de arte cresceu em popularidade na nova capital. Ao contrário da arte aristrocrática e luxuosa de Nara e Kyoto, a nova capital tinha uma efervescente cultura metropolitana, mais popular e por isso flutuante. Nascida na transição entre a sociedade estática e fechada (o Japão ficou mais de 300 anos praticamente fechado para o Ocidente na era Edo), o ukiyo-e me parece a representação das mudanças sociais mais importantes que levaram ao novo Japão que teria glória, declínio e um crescimento incrível no século XX.

Acredita-se que a técnica tenha se originado das obras monocromáticas de Hishikawa Moronobu na década de 1670, aprimorada em meados do século XVIII e adotada por Hozumi Harunobu que desenvolveu a técnica de impressão policrômica (Nishiki-ê). Numa cultura na qual as vestimentas eram obras de arte únicas, o ukiyo-e se difundiu rapidamente graças à facilidade da reprodução em massa. Nisso lembra o movimento de ascenção da burguesia que aconteceu também no Ocidente: suas obras eram adquiridas pelos comerciantes burgueses que geralmente não eram ricos o bastante para encomendar uma pintura original, as desejavam repetir o estilo de vida aristocrático.

O tema original do Ukiyo-e era a vida urbana, especificamente atividades e cenas da área do entretenimento: belas cortesãs, lutadores de sumô e atores populares retratados quando ocupados em atividades interessantes. Mais tarde as paisagens, como a retratada acima da série Fuji Sanjuu-Rokke, também se tornaram populares. Assuntos políticos e os indivíduos da alta sociedade só apareciam raramente. O sexo não era um assunto evitado, ao contrário figurava constantemente nas pinturas do estilo, mas os retatos particularmente esplícitos (às vezes punidos por seus exageros) eram chamados de  shunga.

ukiyo-e

Ao findar o período Edo,  navios mercantes estrangeiros voltaram a aportar no Japão e o ukiyo-e desse tempo reflete as mudanças culturais da restauração Meiji (em 1868), que levou ao arquipélago a fotografia e as técnicas de impressão do ocidente. Ao mesmo tempo em que o ukiyo-e saía de moda no Japão (no bunmei-kaika, o movimento de ocidentalização do Japão) ele se tornou fonte da inspiração na Europa tanto para o cubismo quanto para muitos pintores impressionistas, dando início ao Japonismo. Até hoje a técnica ainda serve de inspiração, inclusive em alguns mangás, como Lobo Solitário e Filhote.

Sam @samegui Shiraishi

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Mãe, jornalista e blogueira no @avidaquer, hub multiplicador de cultura e conhecimento. Paranaense de alma nipônica morando na Mooca, apaixonada por gente.


3 Responses to “Ukiyo-e”

  1. Tiago Laurentino says:

    Você conhece livros que folem sobre o Ukiyo-e?

    Sam @samegui Shiraishi Reply:

    @Tiago Laurentino, conheço alguns, você pode encontrar vários nas livrarias da Liberdade, em Sampa. Eu gosto muito da http://www.fonomag.com.br.

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