Ter filhos sobre duas rodas

Postado em Mãe com filhos no dia 12/03/2010 |

Não estou acompanhando a novela Viver a Vida, mas fico sabendo de várias coisas pelo Twitter e pela imprensa, tanto que acompanho o drama vivido pela personagem de Aline Moraes (que tem até um blog) e sabia que a história dela é baseada na experiência real da jornalista paulista Flávia Cintra. Nesta semana uma matéria de Kátia Mello revivia uma parte importante da vida de Flávia: a maternidade. Tetraplégica, ela é mãe dos gêmeos Mateus e Mariana (de 2 anos e 7 meses) e conta na reportagem que sentiu uma nova forma de discriminação e preconceito quando engravidou.

Esta visão deve mudar. A psicóloga Ana Cláudia Bortolozzi Maia, do Núcleo de Estudos em Sexualidade da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e autora do livro Sexualidade e Deficiências, defende que o portador de deficiência pode levar uma vida sexual ativa e pode construir uma família, mas tanto a grávida como a mãe cadeirante sempre vão precisar de apoio adicional.

Especialistas são unânimes em afirmar: “Não deixe que amigos, familiares ou até médicos façam com que você não tenha um bebê”. E concluem: “Embora haja riscos de complicações relacionadas à gestação, você pode reduzi-los e administrá-los com cuidados de um pré-natal adequado e um planejamento apropriado”.

Embora respondam por uma parte grande da nossa população – são 6 milhões de pessoas, 27% do total dos 25 milhões de deficientes físicos – os deficientes com mobilidade reduzida ainda passam incólumes nas estatísticas. Segundo li, o IBGE ainda não discrimina o gênero dos deficientes e, no próximo censo, previsto para este ano, isso também não deverá acontecer. Talvez por isso os médicos também não saibam orientar tão bem os pacientes sobre a maternidade, que exige cuidados especiais.

Fiquei contente por saber que esta realidade pode mudar e não é só para quem pode pagar por isso. São Paulo inaugurará em março o primeiro serviço de atendimento à saúde da mulher com deficiência, num projeto piloto baseado no Hospital Municipal Maternidade-Escola de Vila Nova Cachoeirinha que será depois expandido para outros hospitais da rede municipal paulista. São camas especiais para exames ginecológicos, mamógrafo para que a gestante faça exames sem sair da cadeira de rodas e um equipamento (tipo guindaste) para transferi-la da cadeira para a cama. E me alegra saber que não é só maquinário: médicos, enfermeiros, terapeutas, psicólogos serão treinados e saberão atender a mulher cadeirante cientes de que ela não é diferente, apenas precisa de cuidados diferentes.

Lendo a matéria Ter filhos em Duas Rodas e acompanhando os relatos notamos que as dúvidas das mães são as mesmas, lembrando aquela frase que diz que “mãe é tudo igual, só muda de endereço”. Outra entrevistada, Marcela Cálamo Vaz (43 anos, paraplégica e mãe de Ricardo, de 10 anos, e Luís Felipe, de 5) relembrava:

“Será que vou conseguir trocar fraldas, será que vou conseguir colocá-lo sozinha no berço? E se eu derrubar meu bebê ou ele engasgar, quem virá para socorrê-lo?” Como ela dizia, “não é fácil ser responsável por outras vidas.”

Qual o segredo destas mães?  Um que talvez você também use: elas conhecem muito bem suas limitações e costumam criar soluções antes que os problemas apareçam. E ao invés de tentarem ser supermães e supermulheres, elas sabem usar a rede de apoio (família, babá, empregada) para fazer tudo dar certo sem se desesperar!

Creio que muitas de nós pode aprender bastante com esta atitude não é mesmo?

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Sam @samegui Shiraishi

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Mãe, jornalista e blogueira no @avidaquer, hub multiplicador de cultura e conhecimento. Paranaense de alma nipônica morando na Mooca, apaixonada por gente.


12 Responses to “Ter filhos sobre duas rodas”

  1. Ingrid says:

    OI,

    Como irmã de um cadeirante acho importantíssimo que tudo sobre inclusão e aceitação das pessoas como elas são seja dito; me preocupa pra caramba que as pessoas vejam sempre as pessoas especiais como “coitadas”.

    Elas podem, sim, ser mulheres e homens úteis, produtivas/os, interessantes, sensuais, amigas/os, namoradas/os, esposas/os, mães/pais, amorosas/os…

    Creio que vencidos os limites que todo o ser humano se coloca, os limites sociais e culturais sejam bastante difíceis de serem derrubados.

    As pessoas portadoras de deficiência precisam de suporte, amizade, encorajamento e sobretudo serem vistas como capazes, hábeis, ágeis em tudo o que podem fazer. Especialmente amar, que é o fundamental para ser bom pai e boa mãe…

    Parabéns por abordar o assunto!

    Sam Shiraishi Reply:

    @Ingrid, hoje não tenho mais amigos realmente próximos que são cadeirantes, mas já tive e tenho noção de que, como todas nós, seres humanos, eles são seres que precisam de amor e respeito. Ponto final, né?
    Também há pecualiaridades no convívio com eles, mas nada que não seja superável e que não seja tão diferentes de outras necessidades especiais que as famílias vivem, afinal, todas as famílias têm alguma coisa “especial”, daí aquele ditado de que “acontece nas melhores famílias”.
    Não sei se sabe, mas no último Teleton eu tive a honra de ser uma das convocadas para estimular as doações e a participação via web 2.0. Estive na abertura do programa (o da Hebe) e foi uma oportunidade mágica e impar. O convite veio porque já tenho uma afinidade com o terceiro setor e porque ajudo a AACD de meu bairro sempre que posso e me deu a chance de conhecer vários envolvidos com a defesa dos cadeirantes na mídia social. ;)
    Agradeço sua gentileza de vir aqui no post compartilhar sua história, a experiência feliz da sua irmã e por me dar a chance de conhecê-la melhor.

    Sam Shiraishi Reply:

    @Ingrid, ah, publiquei a continuação do texto, uma micro-entrevista que fiz com dois médicos sobre o tema:
    http://www.samshiraishi.com/o-que-os-medicos-dizem-sobre-gravidez-e-parto-de-cadeirantes/

  2. [...] de publicar o post anterior, Ter filhos sobre duas rodas, lembrei que a Flávia Cintra tem um blog: Memórias de uma mãe cadeirante, vale a pena ler [...]

  3. Thais Frota says:

    Ótimo post! É bom mostrar que não existe limite para o ser humano!!!

  4. RT @samegui: Ter filhos sobre duas rodas http://ow.ly/16MJLo

  5. RT @maecomfilhos: Ter filhos sobre duas rodas http://ow.ly/16MJLq

  6. @lidifaria @prialves @acessibilidade que são militantes da causa, vão gostar deste post: Ter filhos sobre duas rodas http://ow.ly/1i86o

  7. Pri Alves says:

    Sam,

    não sei se sou tão militante assim pela causa. simplesmente não consigo ler ou ficar sabendo de casos assim e não contribuir de alguma forma.

    primeiramente, cadeirantes que lutam para se adequar nos moldes da nossa sociedade (que elimina o que tiver fora dos padrões) deveriam receber méritos constantes pela coragem. em segundo lugar, bela abordagem e a linguagem bem humana e materna, parabéns pelo texto, tenho certeza que escreverá muitos nesse sentido.

    e em terceiro, desejo que muitos mais hospitais com maquinários que vc citou, sejam implantados o quanto antes nas em todo território nacional, a carência é absurda e o número de cadeirantes sem condições é enorme.

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