A Vida Como A Vida Quer @samegui

É uma loucura perceber a distância que nos separa da realidade nossos pais. Não é só porque estamos mais conectados ou globalizados, mas porque avançamos muito em termos sociais. O conceito de família mudou e tratei disso outro dia aqui. Acredito que grande parte dos que hoje têm filhos pequenos teve mães trabalhadoras na sua infância. Mas, como nas palavras de Roberto Carlos (que @ianblack gentilmente me enviou por twitter), na nossa infância as mães ainda assumiam bem mais coisas do que deveriam na família. Ganhavam pouco, não tendo uma renda que as equiparasse aos maridos (e assim as colocasse numa posição de co-chefia na familia) e trabalhavam muito. Quando tentavam ser presentes com os filhos, depois de um dia de trabalho pesado (e para algumas uma noite de cuidados domésticos), o marido ainda se achava no direito de reclamar porque demoravam para ir para o quarto. Enfim, uma vida de servidão – que eu me regozijo por não ter, pois vivemos uma vida colaborativa em casa.

Fico sinceramente contente quando ouço as palavras deste disco que minha mãe tocava para me ninar quando nasci e vejo como minha realidade é diferente. Na medida em que as crianças ganharam um espaço seu na família (seus programas, seus gadgets e seus direitos), eles também passam a ter deveres. Em nossa família de meninos de 6 e 8 anos nós já não arrumamos bagunças. Parece nazista, mas não é. Cada um tem a responsabilidade de cuidar do que é seu. Da mesma forma, cada um tem seu quarto, seu espaço e os filhos aprenderam a respeitar nosso canto, sem se sentirem excluídos da nossa vida, mas crescendo conscientes dos papéis que cada um tem na família.

Considero isso uma evolução, igual à dos homens ajudarem a cuidar da casa e as mulheres assumirem parte do orçamento familiar. E vejo esta mesma evolução em casais gays que conheço e que conseguem se apoiar e compartilhar os deveres e direitos de uma família com generosidade e bom senso. O que considero involução é ver um lançamento como o que a editora Marco Zero anunciou por release ontem: O guia das garotas para administrar os homens. O livro da americana Jane Matthews ensina “a colocar o seu homem exatamente onde você quer”. Para completar, o livro promete que ele ficará lá.

“Administrar um homem é uma questão de saber o que se quer dele. Para começar, é preciso saber escolher, depois, controlar a direção e o ritmo do relacionamento, além de ensinar a ele como ser mais carinhoso e presente. Discuta sua sexualidade, transmita confiança, aprenda com lhe dar com as diferenças, domine suas finanças e conquiste um parceiro para a vida toda!”

Eles chamam de administrar homens, mas é um “adestramento”. Não gostei.

:(

P.S. Já que o tema da música é sexo no casamento, lembrei que li umas dicas interessantes no M de Mulher

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Comments

  1. 1
    Viviane
    November 18th, 2008 at 7:46 pm

    Sam,
    Concordo plenamente. Se for para adestramento, compro um cachorro.
    Relacionamento não tem regra pronta, quem faz as regras é o casal, e de comum acordo.

    Sam Shiraishi Reply:

    @vivi e sabemos que estas regras são feitas e refeitas diariamente, precisam ser dinâmicas para funcionar, né? Mais um motivo para eu descrer do adestramento.

  2. 2
    Andréa
    November 18th, 2008 at 8:17 pm

    Nossa, que horror este livro! Fica parecendo que a gente vai ter um robozinho em casa, que vai fazer tudo bonitinho do jeito que a gente quer. :(

    Eu quero uma pessoa inteira ao meu lado! Um ser inteligente, pensante, que discuta as coisas, que diga “não” quando não quiser (ou não se sentir bem em) fazer algo, quero uma relação, uma troca!!! E que não seja sempre concordante com meu ponto de vista, porque o debate enriquece todas as relações.

    Sam Shiraishi Reply:

    @andrea mas como disse no texto, acredito que nossa geração consegue chegar mais perto de uma relação igualitária (nossos maridos de fato dividem a vida familiar conosco) porque nossas mães e avós fizeram pequenas mudanças que permitiram que nós e eles chegássemos aqui mais aptos a viver diferente. Não é o natural, é, de certa forma, uma mutação que estamos promovendo.

  3. 3
    denise rangel
    November 19th, 2008 at 4:09 am

    Não li o livro e não vou opinar sobre ele, mas sobre o tema de adestramento levantado por você. Há milênios que os homens adestram as mulheres. Sem comentários. Esta história de que vamos ser parceiros, um respeitar o outro, ser autênticos e livres só funciona enquanto for conveniente para o homem. Caso contrário ele cai fora. Dificilmente um homem fica num relacionamento que o aprisione. A não ser que esteja preso financeiramente à mulher. Sou radical quanto a relacionamentos. O amor é eterno enquanto o homem quer. E as mulheres livres e independentes, estão sós ou se “adaptaram” ao seu homem por amor ou por conveniência. Desculpe-me usar seu espaço, mas, quem sabe um debate mostre outros lados da questão.
    beijo, menina

  4. 4
    Diabo Verde
    November 19th, 2008 at 4:43 am

    Olá, Sam. Td bem? ADorei seu(s) blog(s). Parabéns.
    Te pergunto 2 coisas.
    1) tem algum texto legal sobre o conceito de “social media”? Gostareia de ler sobre.
    2) afinal, além das fotos, quais foram as conclusões, pontuais, sobre o evento da Nokia. O q se pode tirar proveito? COmpartilha o conteúdo com qm não foi convidado… :-(

    Beijos e parabéns novamente (duartevagner@hotmail.com)

  5. 5
    Ju Dacoregio
    November 19th, 2008 at 9:39 pm

    Cansativos e ultrapassados esses livrinhos que ensinam como fazer com que seu homem seja isso ou aquilo… Já não basta todas as coisas na vida que temos de administrar, cuidar, batalhar, ainda ter que usar táticas de guerrilha para que eles sejam do jeito que a gente quer não funciona e cansa demais!!!

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