Obama e Warren
Postado em Cotidiano e sociedade no dia 16/02/2009 |

Obama e Warren durante a entrevista
Recebi uma mensagem da @evellyn com uma apresentação sobre a importância da mãe de Barack Obama (Ann Dunham), ressaltando, com base em sua história de vida, características de sua personalidade aberta, “avant garde” e humanitária. Lembrei-me de imediato de um texto sobre o novo presidente dos EUA que eu escrevera há alguns dias e ficara no rascunho aqui no blog. Publico-o abaixo.
Durante a campanha presidencial norte-americana de 2008 eu fiz alguns posts me posicionando com simpatia tanto por Obama quanto por Hillary. Nenhum dos dois era o candidato perfeito – não existe ser humano perfeito e, admitamos, em política se faz concessões demais para que seja possível manter firmes os elevados propósitos que possamos eventualmente ter como indivíduos. Mas vejo na minha geração (e nas mais jovens também) um desejo sincero e genuíno de que o Governo Obama seja um catalisador das mudanças necessárias para o Mundo.
No dia da posse, envolvida em reuniões e na Campus Party, não pude acompanhar como gostaria a posse e suas várias repercussões (vi apenas comentários elogiosos ao novo “casal 20″ e à personalidade da Primeira Dama Michelle). Eis que no começo de fevereiro li (na edição de feveireiro de 2009 da revista Seleções) uma entrevista pessoal que Obama concedeu ao escritor Rick Warren no ano passado e que continha trechos que encontraram eco em mim e talvez expliquem o interesse dos jovens por ele. Notem que a platéia era cristã e o discurso fala para este nicho da sociedade, mas que, mesmo assim, as perguntas são tão pertinentes que valem compensam qualquer dogma embutido nelas.
Rick Warren: Qual seria a maior falha moral dos EUA?
Barak Obama: Acho que a maior falha moral do país, durante a minha vida, tem sido ainda não termos seguido aquele preceito básico em Mateus que o que se faz ao menor dos meus irmãos é feito a mim. Este princípio se aplica à pobreza, ao racismo e ao machismo. Aplica-se a não pensar em oportunidades para que as pessoas cheguem à classe média. Há a sensação generalizada de que este páis, por mais rico e poderoso que seja, não investe tempo suficiente para pensar nestas questões.
RW: Qual a posição política mais importante que o senhor defendeu há dez anos e que não defende mais, sobre a qual mudou de idéia porque hoje tem outro ponto de vista.
BO: Um bom exemplo seria a questão da previdência social. Sempre acreditei que nosso sistema de apoio governamental ao bem-estar dos pobres tinha que mudar, mas temia que a legislação a esse respeito, aprovada inicialmente pelo presidente Clinton há uns dez anos, tivesse resultado desastroso. Trabalhei na legislatura do Estado de Illinois para garantir assistência médica, assistência médica infantil e outros serviços às mulheres que perderiam o direito à política da previdência social. Fuuncionou melhor do que muita gente previa. E uma das coisas que eu estou absolutamente convencido é que precisamos exigir que quem recebe auxílio do governo tem de procurar emprego, como peça central de todas as políticas públicas sociais. Não só porque, em última análise, quem trabalha consegue mais renda mas por causa da dignidade intrínseca ao trabalho, da sensação de ser útil.
Gostei especialmente de sua postura sobre o trabalho mesmo para quem recebe benefícios do governo. Lá, como aqui, pessoas que são beneficiadas com “bolsa-família” deixam de buscar uma melhoria de renda porque se habituam a viver do Estado e creio que isso é nocivo para as famílias como um todo. Falo porque tenho duas parentes distantes que não se casaram legamente e criaram seus filhos com rendas de pensões vitalícias garantidas a elas por uma legislação antiquadíssima que considera que mulheres solteiras são dignas de auxílio do Estado desde que não se casem. Embora tenham feito faculdade e tido a chance de encontrar uma profissão e um trabalho dignos, nunca realmente firmaram em empregos ou buscaram ser produtivas para a sociedade porque não “previsavam”. Isso há de ser revisto na previdência, não?
RW: Vamos tratar do aborto. Em que ponto o bebê passa a ter direitos humanos na sua opinião?
BO: Acho que, se a gente olha essa questão do ponto de vista teológico ou científico, responder com certeza está além do meu alcance. Mas vou falar em termos mais gerais sobre a questão do aborto.
Estou convencido de que haja um elemento ético e moral nesta questão. Assim acho que quem tenta negar as dificuldades morais e a gravidade da questão do aborto não está prestando atenção. Esse seria o ponto número 1. Mas o ponto número 2 é que sou a favor da escolha, não porque seja favorável ao aborto, mas porque, em última análise, não acho que as mulheres tomem este tipo de decisão com leviandade. Elas lidam com o problema de um jeito profundo, consultando o marido, os médicos, o pastor, e os membros da família.
Então para mim, o objetivo agora deveria ser – e é aí que podemos encontrar um terreno em comum – reduzir o número de abortos.
Neste ponto creio que numa sociedade católica como a nossa e num país onde praticar o aborto é crime, as mulheres não conseguem lidar de forma racional sobre o tema e quem pratica aborto o faz sem conseguir considerar todas as questões que envolvem o assunto. E, apesar de não ser a favor do aborto, sou também sou plenamente a favor da escolha. E do direito à informação e apoio para a mulher em sua vida sexual.
Sobre o casamento (e aqui Warren pressionava Obama a se posicionar sobre as uniões homossexuais):
BO: Acredito que casamento é uma união entre um homem e uma mulher. Agora para mim como cristão é também uma união sagrada. Não apoiaria [uma emenda constitucional com esssa definição de casamento] (…) porque, em termos históricos, não definimos o casamento na nossa Constituição. Essa tem sido uma questão de lei estadual, de acordo com nossa tradição. A razão pela qual alguns acham que é preciso haver uma emenda constitucional se deve à preocupação com o casamento entre as pessoas do mesmo sexo. Não promovo o casamento entre as pessoas do mesmo sexo, mas acredito em uniões civis. Acredito que, quando um homossexual deseja visitar seu parceiro no hospital, por exemplo, o Estado deveria dizer: “Querem saber? Está certo.” Acho que isso não contradiz em nada minha crença básica do que é o casamento. Minha fé e meu casamento são bastante sólidos e me permitem conceder estes direitos civis a outros, mesmo que eu tenha um ponto de vista ou opinão diferente.
Aqui lembrei, inevitavelmente, do personagem do Rob Lowe no seriado Brothers and Sisters no qual ele interpreta um senador candidato às primárias do Partido Republicano para a presidência dos EUA e que tem um irmão que é pastor evangélico e homossexual assumido. Durante alguns episódios ele namorou outro personagem, um advogado que se sente errado por sua opção e que ao final da temporada de 2008 celebra uma união civil com seu atual namorado numa cerimônia cheia de significado e também que deixava à flor da pele preconceitos. No entanto, como há muita controvérsia na web sobre esta resposta de Obama, deixo o registro de que eu não sou contra os casamentos gays porque tenho tido a oportunidade de conviver com casais amigos que são exemplos de maturidade, lealdade e caráter e muitas vezes me fazem pensar em como o mundo poderia ser bom se os casais se respeitassem e se amassem como eles.
RW: Agora uma questão que me toca profundamente. Muita gente sabe que há 148 milhões de órfãos no mundo, crianças criadas sem pai nem mãe. Não precisam estar em orfanatos, precisam é de família. Mas muitas famílias não têm condições de receber estas crianças. O senhor pensaria, e até se comprometeria, em elaborar um algum tipo de plano para de emergência para os órfãos?
BO: Acho que é uma grande idéia. É algo que devíamos sentar e planejar, trabalhando com organizações não-governamentais, instituições internacionais e o governo americano para descobrir o que podemos fazer. No entanto, para começar, parte do nosso plano tem de ser como impedir que haja mais órfãos. Isso significa ajudar a construir a infratestrutura de saúde pública no mundo inteiro.
Frequentemente este assunto me vêm à mente. Vejo as crianças que vivem sob o risco da marginalidade, em situação de rua por viverem com seus pais em carrinhos que transportam lixo reciclável ou os que ficam sozinhos em casa nas favelas enquanto os pais trabalham fora. Estas crianças, tanto quanto as que já são órfãs, precisam de assistência social. E as famílias precisam de apoio financeiro, médico (inclusive psicológico para não passarem para frente traumas que já viveram pela situação social difícil) e assim conseguir mudar o círculo vicioso no qual estão inseridos há gerações.
P.S. No mesmo dia em que escrevi este post minha irmã fez um post admirável sobre a situação dos moradores de rua no seu bairro (Botafogo) intitulado: ignore o que você vê; seria essa a melhor estratégia?
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Sam @samegui Shiraishi
Mãe, jornalista e blogueira no @avidaquer, hub multiplicador de cultura e conhecimento. Paranaense de alma nipônica morando na Mooca, apaixonada por gente.




Que bom que você gostou da apresentação! Achei-a tão pesada, mas como o conteúdo era relevante, decidi enviar. O que mais gostei foi a ótica do papel da mãe na formação do caráter de um atual líder político.
Beijos
RT @MalokaEletrika: deu flojera retuitar ontem:texto ☺ s/ a censura à BrigadaInternacionalArgentina na 29ºBienaldeSP http://migre.me/1oL …