O eu profundo e outros eus

Postado em livros no dia 04/07/2009 |

flipzona 019 por você.

Uma das grandes motivações para minha vinda à Flip foi a mesa debatedora de hoje. Não por Mario Bellatin – autor que eu não conheço e, se me permitem a franqueza, depois da coletiva de ontem e do debate de hoje não pretendo conhecer. Mas por Cristóvão Tezza, que se tornou famoso por um best-seller (O filho eterno, Ed. Record, no qual conta em terceira pessoa as dificuldades que viveu para aceitar o filho que tem sindrome de Down) e que, como já falei, foi meu professor e me influenciou grandemente como escritora.

Escritora? Pois é, quanto mais respiro o ar desta cidade onde até as pedras do calçamento histórico parecem nos dar letras para ler, mais eu me aceito – enfim – como alguém que vive de escrever. Mas eu jamais pertenceria a uma escola de escritores que, como a de Bellatin, é contra o uso de referências autobiográficas nas obras de ficção. Por outro lado não descreveria minha vida em terceira pessoa, como fez Tezza em O Filho Eterno.

Daí toda minha curiosidade com este debate de hoje. E me deparei com dois escritores muito diferentes entre si, o que torna o debate ainda melhor – e vale ler a descrição que Luciano Trigo, do Máquina de Escrever, sobre eles.

Cada dia mais vejo o blog como um jornalismo gonzo, aquele no qual acabamos sendo figuras das histórias, nos quais as aventuras que vivemos para chegar no texto final permeiam a obra – como os relatos de Luis Nachbin no final do Passagem  para… da TV Futura. E sobre este tema, Tezza falou

“é um grande perigo transformar a vida pessoal em literatura, porque você pode se tornar um personagem de si mesmo. Os grandes desfiles nazistas faziam isso, ao transformarem a massa num fator de composição estética, esmagando a individualidade.”

flipzona 015 por você.

Ainda bem que eu não tenho a pretensão de fazer literatura, né?

Mas eu tenho a pretensão, sempre, de participar de uma conversa com o leitor e foi com imensa surpresa que ouvi Tezza contar que esta é uma experiência totalmente nova na vida dele. Lembro de ter noticiado aqui, com entusiasmo, do lançamento de sua coluna na Gazeta do Povo chamada Blog de Papel e creio que ele se referia a ele quando comentou que ao começar a escrever para um jornal de Curitba (há menos de dois anos) ele viveu a experiência de ter o retorno, a reação, o feedback do leitor. Pessoas que mandam cartas, mensagens, que comentam o que ele escrevia. Eu não consigo imaginar que ele pode viver sem este retorno. (E passarei dias pensado sobre o que esta não-relação fez com ele como escritor)

O blog nos dá isso com uma dimensão tão forte, não? Ele nos dá outra coisa, pensei durante a conversa de Tezza com Bellatin, moderada por Joca Reiners Terron. Universaliza, globaliza, democratiza. Em resposta à última pergunta da rodada, que tratava de uma suposta literatura nacional, ambos os autores concordaram que ela não existe. E Tezza revisou a história em poucas palavras, nos fazendo concordar que a literatura foi a primeira coisa globalizada. E foi o grande meio universalizante e globalizante em termos de cultura – e quando usada com este objetivo, é democratizante também.

Daí vou voltar aos blogs: eles trazem em si o mesmo potencial, mas, como em tudo, depende de quem o utiliza fazê-lo vingar e florescer. A semente, creio, é a mesma, basta terra fértil, sol e bom senso. ;)

#flip2009 por samegui.
Mario Bellatin na coletiva de imprensa da Flip 2009.

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Sam @samegui Shiraishi

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Mãe, jornalista e blogueira no @avidaquer, hub multiplicador de cultura e conhecimento. Paranaense de alma nipônica morando na Mooca, apaixonada por gente.


4 Responses to “O eu profundo e outros eus”

  1. Olá amiga,
    Você escreve muito bem!!!
    Adoro ler seus textos.
    bjs e aproveite

  2. no blog O eu profundo e os outros eus, sobre Tezza e Bellatin http://bit.ly/q2Gme #flip2009

  3. Bites says:

    RT @samegui no blog O eu profundo e os outros eus, sobre Tezza e Bellatin http://bit.ly/q2Gme #flip2009

  4. andyzeo says:

    …é um grande perigo transformar a vida pessoal em literatura, porque você pode se tornar um personagem de si mesmo… http://is.gd/1CwOw

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