Review do livro O culto ao amador
[update] Modifiquei o título porque fui questionada no Twitter ao colocar o subtítulo do livro aqui. E antes que comece a leitura, já adianto: acredito que os blogs e as redes sociais estão construindo e reformando a forma como consumimos cultura. Sou uma grande entusiasta deste movimento.
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Quando pesquisei para escrever o post sobre a gravadora de LPs e o relançamento de discos clássicos lembrei muito de uma leitura instigante que fiz há pouco tempo. Trata-se do polêmico livro de Andrew Keen, O culto ao amador – como blogs, MySpace, Youtube e a pirataria digital estão destruindo nossa economia, cultura e valores, publicado pela Jorge Zahar Editor.
No capítulo 4, intitulado O dia em que a música morreu, ele relembra o fechamento da loja Tower Records (em São Francisco, Califórnia) e parte deste evento para vaticinar um futuro cruel para a música com o advento da mídia digital – e a consequente pirataria, a troca de arquivos tão facilitada que vivenciamos hoje em dia. Nesta hora eu pensei: quando foi mesmo a última vez que eu comprei um CD? Para mim eu não lembro, mas comprei CDs para meus filhos. No entanto, quase não foram usados, imediatamente foram “ripados” e passaram a ser ouvidos no i-pod, no home theater ou no som do carro, todos com interface USB e tocadores de MP3. Terá sentido manter esta indústria, continuar fabricando CDs para esta geração?
Eu sinto por eles. Nunca foram a uma loja de CD com L maiúsculo. Eu lembro que na Tower Records de Shibuya (em Tokyo) podia-se encontrar qualquer coisa e não raramente podíamos parar na calçada em frente à loja para ver lá shows incríveis. Mas meus filhos não viveram isso e não creio que viverão. Por outro lado, conhecem uma variedade muito maior de música do que eu conhecia em sua idade e este conteúdo está sempre ao seu alcance.
As reflexões parecem leves, mas quando comecei a ler minha sensação foi de um soco no estômago! Como blogueira e entusiasta das redes sociais senti que as palavras dele me feriam. Mas como profissional de comunicação que migrou sua carreira da imprensa para o jornalismo online eu entendi perfeitamente suas preocupações. Esta sensação, esta divisão interna me impactou profundamente e creio que este era o objetivo dos editores quando me convidaram a conhecer a obra.

A imagem é boa, mas no meio de vários blogs que a usaram, não consegui detectar o autor!
Além de uma grande preocupação – que o levou a uma cruzada que eu me arrisco a achar quixotesca, porque é uma luta sem chances de vitória e contra um inimigo que se não é imaginário, é tão coletivo que não pode ser identificado -, Keen critica muito a ideia que está por trás dos sites de relacionamentos, usando como mote o slogan do Youtube: “broadcast yourself” (traduzido no livro por Transmita-se a si mesmo).
“À medida que a mídia convencional tradicional é substituída por uma imprensa personalizada, a internet torna-se um espelho de nós mesmos. Em vez de usá-la para buscar notícias, informação ou cultura, nós a usamos para SERMOS de fato a notícia, a informação e a cultura.”
Dentro da crítica do autor, as redes sociais (ele cita muito o MySpace, que nos EUA é popular como o Orkut aqui) são “santuários para o culto da autotransmissão” e “repositório de nossos desejos e identidades individuais”. Parece exagero, mas quando ele trata deste tema, ele tem certa razão. Se a mídia antiga está ameaçada de extinção, quem tomará seu lugar? (e aqui reflexões sobre o fim da exigência do diploma de jornalista no Brasil e questões como o sigilo das fontes nos vêm inevitavelmente à mente)
Diariamente eu recebo pedidos de novos blogueiros interessados em ingressar num dos projetos que eu coordeno e na triagem que faço eu noto que está se reduzindo o número de editores de blog têm noção da importância da ética quando à autoria dos textos, da responsabilidade que um escritor tem com seus leitores, da importância do relacionamento honesto e colaborativo com seus pares. Cheguei a receber uma proposta que garantia que seu conteúdo era perfeito para compor a rede de blogs femininos e, ao entrar no blog, percebi que tinha cópia integral e descarada de textos do portal que reúne os blogs – e claro, sem qualquer menção aos autores ou links para o site “referenciado”.
O futuro parece desolador. Para quem não sucumbir à depressão desta realidade mostrada por Keen no qual a música (quiçá boa parte da indústria do entretenimento) será “um atrativo gratuito para vender outras coisas” – porque com a pirataria digital, explica o autor, não há mais investimento das gravadoras e grandes estúdios em novos nomes e consequentemente a qualidade artística poderá decair -, há soluções.
Uma delas, que considero uma cruzada interessante (e apóio), mas na qual também noto “toques de Dom Quixote”, é a luta pela proteção aos direitos autorais. Neste ponto – defendido com detalhes históricos no capítulo O Dia em que a música morreu [lado B] – tive dúvidas imensas sobre a capacidade que nossa sociedade atual tem de criar diques que consigam resistir às tempestades da web 2.0 e às enchentes de novos usuários que não estão dispostos a pagar para ouvir música, ver filmes e seriados ou ler livros.
Fato é que não podemos mais olhar para o lado e fingir que não vemos esta realidade que está à nossa frente. É momento de pensar coletivamente como podemos “canalizar a revolução da web 2.0 de maneira construtiva, de modo que ela enriqueça ao invés de matar nossa economia, cultura e valores”. E neste ponto recomendo O culto ao amador como ponto de partida para uma reflexão profunda e colaborativa sobre o momento que vivemos.
[Parte desta discussão foi tema do Digital Age 2008 e na época fiz um post sobre a palestra do professor Lawrence Lessig, fundador e idealizador da Creative Commons.]
P.S. Devo deixar claro que por não ser estadunidense não concordo com parte do discurso de Keen, segundo o qual é preciso “reformar, não revolucionar, uma economia de informação e entretenimento que, ao longo dos últimos 200 anos, reforçou valores americanos e fez da nossa cultura a inveja do mundo”. Embora eu respeite e consuma cultura dos EUA, não consigo concordar – prefiro considerar que nossa cultura (a brasileira) é uma das que faz inveja ao mundo – mas este papo fica para outro post!
[update] Dois colegas também escreveram sobre o livro: André Deak e Tiago Dória. [/update]









Thursday, Thu Jul 2009
“Não há mais investimento das gravadoras e grandes estúdios em novos nomes e consequentemente a qualidade artística poderá decair” é radical demais.
Talvez ele goste do trashpop e, com a disseminação de artistas independentes, se sinta ameaçado por não ter esse tipo de som descartável aos ouvidos.
Thursday, Thu Jul 2009
Resisti à leitura desse livro por algum tempo e sucumbi depois de você ter me falado a respeito da tal sensação de “soco no estômago” que você mencionou aqui nesse post.
Mencionei minhas próprias impressões num port recente do meu blog (http://www.boombust.com.br/algumas-verdades-inconvenientes/) mas confesso aqui (o que não fiz lá) que mais respeito do que discordo do Keen, a quem, aliás, fui apresentado pelo Juliano Spyer que o entrevistou recentemente e com que cheguei a trocar e-mails na tentativa de viabilizar uma vinda sua ao Brasil – o que pode ser que aconteça ainda no segundo semestre desse ano.
O post do Tiago Dória que você referencia aqui o julga “morno”, julga que seu discurso atualmente não traz novidade. Mas eu ainda julgo que muito do seu discurso é, no mínimo, pertinente. Muito, não todo ele.
Friday, Fri Jul 2009
Penso que o advento do MP3 não prejudicou música. Antigamente, as gravadoras montavam um LP ou CD com duas músicas efetivamente de qualidade e 10 porcarias e vendiam o produto pelo “hit”, lucrando com o resto de má qualidade.
Hoje, o que se nota é que os “hits” vendem nas lojas virtuais, porque existe alguma consciência sobre pirataria. Mas os artistas ganham muito mais hoje com shows que no passado, porque a promoção dos eventos ganhou impulso pela internet.
Ou seja, para o artista, houve compnsação. E para as gravadoras, idem, porque se vendem apenas hits esparsos, não tem mais custos de produção material do LP/CD.
O que está prejudicando a música mundial é a falta de cultura de quem a faz. No Brasil, coisas como Latino, Kelly Key e Bonde do Tigrao fazem sucesso, mas não música. E é um fenômeno mundial essa coisa de ouvir porcaria sem sentido, vide os rappers americanos, ou completos LIXOS como Ryhana, Mariah Carrey, etc… sem contar a crise criativa. Hoje em dia, regravações e versões são comuns para todos os artistas, pouca gente faz trabalhos efetivamente inéditos.
Nas demais áreas culturais, a internet é incentivadora. Hoje qualquer pessoa pode ter o prazer de visualizar obras de pintores famosos, de analisar arquitetura, de estar informado sobre peças de teatro, etc… e mesmo o cinema ganha muito com os blogs eo twitter, na hora da divulgação. A pirataria de filmes ainda é insipiente, porque eles são arquivos grandes, e mesmo as redes mais rápidas não possibilitam alta qualidade de download.
De modo geral, a internet é boa para a cultura. O que não é bom é o emburrecimento geral da humanidade,que não é causado pela internet, mas sim pelo consumismo e pela destruição de valores morais mínimos.
Friday, Fri Jul 2009
Li o post. Preocupo-me com os direitos autorais também. Uma das soluções provisória seria publicar em livro o material importante (e aí a gente lembra que são xerocáveis). O que é triste, porque seria mais fácil e correto cada disseminador de opinião utilizar a ética e colocar as fontes, e de maneira correta.
Friday, Fri Jul 2009
“Uma delas, que considero uma cruzada interessante (e apóio), mas na qual também noto “toques de Dom Quixote”, é a luta pela proteção aos direitos autorais. ”
Defender os direitos autorais, nessa altura do campeonato, é como tentar se salvar de morrer afogado, mesmo etsando no meio de um furacão em alto mar, sem embarcação nem ajuda. O direito autoral, como o conhecemos, já morreu e faz tempo. Ele só existe na lei e na mente dos super ricos (das corporações que dele idealizam a ecistencia).
Desde que fora criado a tecnologia para libertá-lo das mãos dos mais ricos (cuja libertação há muito era aguardado pela sociedade – que tinha consumo reprimido, demanda reprimida, por causa do aparthaid economico perpretado pelos altos preços, entre outras causas) ele foi liberto, assim como um passarinho é liberto ao abrir a gaiola e ele voa feliz em liberdade.
E não adianta apontar a internet como culpada, ela é apenas meio, não fim. O “culpado” o livre arbítrio das pessoas, alavancado com sede de acesso e por uma demanda extremamente reprimida, um aparthaid economico e social da coisa desde sempre.
O computador libertou, a Ásia ajudou a libertar, a internet só consagrou esta libertação. O direito autoral não tem mais jeito, lutar por ele é como lutar uma guerra perdida, que, no final só se terá mais mortos e feridos.
O que se pode é lapidá-lo (diminuí-lo adequá-lo) de modo que ele consiga se encaixar no padrão de comportamento da sociedade “liberta”. Como se fosse um quadrado que precisa suas arestas aparadas para virar uma bola e assim se encaixar no circulo da sociedade. Este modelo não mais funciona, e a sociedade que escolheu que ele não mais presta.
As corporações precisarão de outro modelo que acompanhe o fluxo que a sociedade decidiu seguir, um deles seria vender o “acesso” universal á todos os produtos autorais, através de uma “Taxa autoral” mínima e fixa, que todos pudessem pagar mensalmente, junto com o provedor, além de outras iniciativas neste sentido (menos amplo, como “video clubes” de cinema e música, pagando uma taxa mensal para acesso, etc).
A sociedade cresceu, logo os ricos precisam diminuir seu status quo para a conta se encaixar, e fechar. Logo o direito autoral precisa se diminuir e nessa diminuição se encaixar numa modelo mais sincero, justo (para a sociedade) e humilde que ele consiga ser renumerado.
Não acredito nestes alarmismos que a indústria cultural e a economia se extinguirá. Isso é apenas alarmismo para “moralizar” e “justificar” a repressão, opressão, essas coisas, em cima do povo (e que no final nada adianta, na não se caçar bodes espiatórios e engordar contas de advogados). Nem posso acreditar: não numa industria cultural que fechou o ano passado com um faturamente de 7,5 TRILHÕES de dolares no mundo todo (!), 15% do PIB mundial… Para que estava “falindo”, nada malz…
Este direito autoral não tem mais jeito, é preciso remodelá-lo (para baixo) e eacomodá-lo á sociedade (não o contrário, o contrário não vai funcionar, pois a força da sociedade é mais poderosa que pequenos grupos capitalistas de poder nesta, o importante são modelos de negócios naturais, para naturalmente co-existirem, e não forçados). Neste paradigma o direito autoral está na UTI e em coma. Sua ressuscitação depende de dar uma nova vida á ele, uam vida nova, uma diretriz nova, menos cerceadora, menos injusta socialmente.
Wednesday, Wed Jul 2009
Olá, como vai?
Antes de tudo, parabéns pela iniciativa de utilizar seu blog para unir pessoas em torno de alguma causa. Assim como você, acreditamos no potencial da blogagem coletiva como formato possível de união e mudança na sociedade.
Criamos recentemente o blogagemcoletiva.org (www.blogagemcoletiva.org). Trata-se de um agregador de conteúdo voltado à divulgação de mobilizações coletivas realizadas via internet.
A idéia é tanto auxiliar o blogueiro a potencializar suas manifestações como também divulgar os resultados obtidos através de sua iniciativa. O funcionamento é semelhante ao de indexadores como Uêba, Ocioso e Linklog. Tudo pode ser feito sem a necessidade de cadastro. O blogueiro nos envia sua manifestação por meio do link “envie uma blogagem” presente no topo da página e, se tudo estiver dentro das nossas políticas de publicação, ela será divulgada no site.
Ah, e para incentivar a adesão da blogosfera nós criamos um ranking, onde os visitantes podem declarar por meio do voto sua participação ou apoio à causa. A manifestação mais votada a cada semana ganhará destaque especial no site.
Podem ser blogagens coletivas, memês, petições, campanhas, protestos e toda e qualquer manifestação válida que busque contribuir de alguma maneira com a sociedade. Por isso, junte seus (suas) companheir@s de blogagem e faça da blogosfera um mais produtivo e engrandecedor. E conte com a gente para que sua iniciativa contamine mais e mais pessoas!
Se puder divulgar a gente em seu blog, seremos muito gratos!
Viva a democracia!
Michell Niero
Monday, Mon Aug 2009
[...] que fiz uma resenha entusiasmada após minha leitura de O culto ao amador – como blogs, MySpace, Youtube e a pirataria digital [...]
Wednesday, Wed Nov 2009
[...] P.S. Andrew Keen é autor de autor de O culto ao amador – como blogs, MySpace, Youtube e a pirataria digital estão destruindo nossa economia, cultura e valores, publicado pela Jorge Zahar Editor. Fiz resenha do livro aqui. [...]