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O arte do mito no Masp
“O mito é o nada que é tudo, diz o primeiro verso do poema dedicado a Ulisses por Fernando Pessoa e impresso no único livro que o poeta viu publicado em vida, Mensagem - o mesmo onde se lê a mais conhecida passagem lembrando que tudo vale a pena se a alma não é pequena. O mito é uma forma do sentido. Uma das primeiras formas do primeiro sentido, da primeira grande narrativa que o homem se deu. A definição aristotélica do homem como um animal político é apressada ou secundária (ou nunca foi bem entendida). O homem é, antes de mais nada, um animal que se conta histórias, é isso que o diferencia entre as espécies. Um animal que se conta várias histórias e a história da política é apenas uma entre elas e não a mais importante.” Estas são as palavras com que o curador do Masp, Roberto Teixeira Coelho, apresenta a exposição A arte do Mito.
Estivemos no Museu no sábado, a convite dos meus filhos, que queriam oferecer “um programa especial de presente de aniversário” para o pai. Foi mesmo, nos encheu de beleza, mas sobretudo nos levou à reflexão. Quem já se deparou com as perguntas das crianças diante do que retratam as obras de arte entende o que eu digo. Quem não esteve, tente imaginar o que a série “Retirantes” de Cândido Portinari (na exposição Arte moderna e contemporânea brasileira do programa com artistas brasileiros reconhecidos), as luxuosas representações de arte italiana renascentista sobre a glória das Sagradas Escrituras (na exposição A Arte Religiosa com obras-primas da arte do século XIV à contemporaneidade) ou os generosos corpos nus com rostos delicadíssimos de Auguste Renoir (da Coleção Masp) trazem de questionamento a quem tem olhar singelo e inocente. Por que eles estavam viajando? Eram muito pobres? Jesus tinha este dourado na cabeça? E a mulher era gorda mesmo? Eles nos questionam os valores da sociedade, exatamente aqueles aos quais já nos habituamos.
Já contei aqui que Enzo se encanta com a mitologia. Agora imaginem vários mitos greco-romanos, entrelaçados nas obras de arte, permitindo-nos rever os conceitos que são passados por gerações ou alterados por elas, ao vislumbrarmos a mesma cena mitólogica (de Eros, Afrodite, Hera, Dionísio, com nomes vários) sendo representados por artistas de épocas distintas, que deixaram seus preconceitos e sua realidade impressas na sua visão do mito. Rendeu muita conversa e uma preocupação imensa dos “guardas” do Masp, que não entendiam bem porque levantávamos a toda hora as crianças para verem tudo. Nesta exposição, que está no fundo do segundo andar do masp, vê-se bem o homem como ser político -ou não- do começo do texto do curador. E foi impossível não ter até com as crianças uma conversa sobre as motivações políticas que algumas obras continham. Em tudo que retrata a humanidade há uma forma de política. A Vênus Vitoriosa (escultura de Renoir) que ostenta a maçã de ouro, prêmio de sua vitória na competição de beleza com Hera e Atena, arbitrada por Páris, ganhou graças ao acordo para conquistar Helena de Tróia. Em tudo parecemos animais políticos sim, mas capazes de ver e sonhar a beleza até na feiúra do comportamento degradado dos deuses antigos.
Serviço:
- Exposição A Arte do Mito
- Local MASP - Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand
- Av. Paulista, 1578 - Cerqueira César - São Paulo - SP
Data: De 3/10/2007 a outubro de 2008
- Horário terça-feira a domingo e feriados, das 11h às 18h; quinta-feira até 20h.
(A bilheteria fecha com uma hora de antecedência)
- Ingresso R$ 15 (inteira) e R$ 7,00 (estudante), gratuito para menores de 10 anos e maiores de 60 anos.
- Dia Gratuito Todas as terças-feiras entrada gratuita até as 18:00 horas





Quintana no Paraíso « A vida como a vida quer
Says:
February 26th, 2008 at 4:54 pm
Helton Kuhnen
Says:
March 25th, 2008 at 11:27 am
valeu Sam