Jornada do herói é o foco do grupo Cincoincena

Posted by Sam Shiraishi on Feb 22, 2007 in teatro |

Entrevista que fiz com o Cincoincena e foi publicada no Desabafo de Mãe.

Jornada do herói é o foco do grupo Cincoincena

21 de fevereiro de 2007

Samantha Shiraishi, mãe de Enzo e Giorgio

São Paulo, SP - Em seu mais recente trabalho infantil, o grupo Cincoincena conseguiu uma proeza que considero fantástica: transpor para o teatro alguns dos memoráveis personagens da deliciosa obra poética de Cecília Meireles, o livro Ou Isto Ou Aquilo, na peça teatral O Menino e o Burrinho . Segundo o grupo, o espetáculo surgiu da vontade de falar sobre escolhas. "Quando lembramos do livro entendemos que queríamos contar uma fábula de coragem", explica a diretora Bia Borin. "Cecília começou a escrever quando menina e não parou mais. É uma de nossas maiores poetisas e tinha uma preocupação profunda com as crianças". Trabalhar com poesias, dar-lhes forma no palco, foi um desafio para o grupo, que construiu o texto coletivamente.
Cincoincena é um núcleo da Cooperativa Paulista de Teatro, constituído há nove anos por ex-alunos da Faculdade de Comunicação Social Cásper Líbero e da Fac. de Artes Cênicas da ECA-USP. Dentre seus trabalhos, chama atenção um estudo coordenado com a atriz Bia Borin sobre Teatro de Rua, que resultou no auto de natal "A quem buscais?", apresentado em parques, em unidades do Sesc e do CEU, além de participação em mostras e festivais como o de Curitiba.
Conversei com as atrizes depois da peça de teatro e com Bia no dia seguinte, resultando no bate-papo a seguir:

Desabafo de Mãe: Escolher é muito difícil, diz o texto de divulgação do espetáculo. Como foi escolher as histórias de Ou isto ou aquilo para a peça? E por que este livro?

Cincoincena: Este é um livro que marcou nossas infâncias, ainda lembrávamos de várias das poesias da Cecília e então foi natural querer levá-las para o palco. Num primeiro momento, cada uma escolheu as poesias de que mais gostava. Depois, escolhemos como norte da nossa pesquisa dramatúrgica a poesia "O menino azul", porque ela trazia uma história sobre a dificuldade do menino de trilhar seu próprio caminho.

2. Transformar várias poesias, aparentemente desconexas, numa história uníssona é uma tarefa incrível. Que caminho vocês tomaram para escolher, por exemplo, a bailarina e o Chico Bolacha como companheiros de viagem do Menino Azul?

Cincoincena: Desenvolvemos a trajetória do nosso herói, o Menino Azul, e selecionamos poesias que traziam personagens que pudessem interferir nesta história. Para isso, estudamos textos de Aristóteles, Campbell e Christopher Vogler, que nos revelaram a estrutura da jornada do herói mitológico. O Chico Bolacha, por exemplo, representa o falso mentor; a Bailarina, por sua vez, representa o encontro com o amor e a possibilidade da jornada encontrar o seu fim.

3. Não assisti a outros espetáculos da companhia, como a Bicicleta do Condenado e Para ver com o coração. O que eles tem em comum com o Menino e o Burrinho? E com ao público infantil?

Cincoincena: "Para ver com o coração", de Nelson Albissú, era um espetáculo infantil e foi a primeira montagem do grupo voltada a esse público. Contava a história de uma menina que brincava no seu jardim com um amigo de outro mundo. "A Bicicleta do Condenado", de Fernando Arrabal, era uma peça para adultos. A história de um pianista que luta incessantemente para criar sua música também apresentava vários obstáculos. Portanto, o tema da jornada do herói é universal. A forma é que muda. No caso do Cincoincena, sempre procuramos conjugar dramaturgia às áreas da criação teatral. Um ponto importante em "O menino e o burrinho" é a relação com a trilha sonora, por exemplo. Os trechos de Villa-Lobos e Bela Bartók complementam as ações das personagens e ajudam a criar a atmosfera sugerida pelas poesias.

4. Notei que as crianças se encantaram com a sonoplastia sendo feita ali, à sua vista. É uma característica do trabalho de vocês? Que expectativas vocês tinham sobre a reação dos pequenos quando planejaram esta exposição?

Cincoincena: É uma característica desde o Auto de Natal, nosso trabalho com Teatro de Rua. Em "O Menino e o Burrinho", o Andarilho sobe no palco e inventa sons e histórias com o que encontra e carrega consigo. Observa o que está à sua volta, assim como faz a poesia de Cecília Meireles. Cria um universo mágico com objetos simples, assim como qualquer criança que encontra numa bacia um mundo de possibilidades imaginativas.

5. A criança deve ir ao teatro com os pais ou com a escola? Há diferenças nas apresentações para estes públicos? E quanto ao teatro de rua, como do no auto de natal "A quem buscais"? Como as crianças reagem no ambiente aberto?

Cincoincena: São experiências bem diferentes e importantes. Com a escola, existe uma liberdade diferenciada, que é a de mesclar-se a um grupo e ser não somente um indivíduo, mas parte de um todo. Torna-se necessário um pacto desse coletivo: se esse grupo não quiser que a peça aconteça, é fácil. Mas, geralmente, existe um respeito grande pelos atores e os espetáculos acontecem lindamente. Nesta vivência é importante frisar o papel do professor que, preferencialmente, prepara o aluno para assistir a peça, dando-lhe embasamento intelectual. O trabalho antes e depois do espetáculo aprofunda a relação com os temas abordados e com o papel cívico do Teatro.
A experiência da criança ir ao teatro com os pais viabiliza o aprofundamento dessa relação, pois ambos vivenciam o mesmo acontecimento. E existe também o fato dos pais levarem a criança a um evento social e, portanto, ensiná-los as "regras" sociais: como ir ao teatro? Onde estacionar? Dar dinheiro pro guardador de carros? Onde é a bilheteria? Quantos ingressos? Onde esperar? Onde eu jogo o saco de pipoca? Onde é a fila? Pais e filhos se divertem, mergulham no jogo, e saem do Teatro companheiros, marujos da mesma viagem.
Já no Teatro de Rua, existe o indivíduo, um coletivo e o espaço público. Na rua, todos os indivíduos são iguais. Executivos e mendigos ocupam o mesmo espaço e representam o mesmo papel: a platéia. Apresentamos, por exemplo, a peça "A quem buscais?" no Parque Villa Lobos. Era incrível como as crianças e adultos interagiam com o espetáculo, faziam silêncio e nos respeitavam. Todos, atores e público, estavam no mesmo jogo: por ser um espaço aberto, é difícil falar e escutar. Portanto, cada um fazia a sua parte. Quanto às interferências negativas, apenas não dávamos foco aos engraçadinhos e eles acabavam se cansando! Temos que nos fortalecer em cena com quem está atento e jogando junto!

6. A linguagem clownesca é o que aproxima Íris das crianças? Meu filho caçula ficou absolutamente encantado com a proximidade dela na fila, à espera do inicio do espetáculo. E o mais velho não foi embora sem uma conversa e um autógrafo. Como você sente que as crianças reagem a esta "intimidade"? É uma troca?

Cincoincena: A ligação não é direta, mas já trabalhei bastante com essa linguagem e percebo que a referência é inevitável. O palhaço deve estar sempre permeável e livre para interagir. O Andarilho passa por um teatro e resolve entrar para assistir ao espetáculo, o que ele quer é entrar na sala para ver uma peça pela primeira vez, o que vai fazer para conseguir vai depender do que acontecer na fila. A reação das crianças é que determina como ele precisa agir, às vezes ajudam ele a se esconder, vão junto com ele na bilheteria para tentar consegui um ingresso ou até mesmo dividem seu convite com ele. É uma troca direta e muito especial.

7. Notei que a Lívia tem experiência no ensino de teatro, com a AABB e nas escolas públicas. Qual a importância que você vê no ensino de teatro para crianças de diferentes classes sociais?

Cincoincena: Eu vejo importância no ensino de teatro para crianças de um modo geral. Criança embarca facilmente na viagem do teatro, usando a imaginação, usando todos os recursos disponíveis com a ajuda da criatividade. Mas, às vezes, é preciso lembrá-las que a regra é brincar, é inventar e não copiar um modelo pronto que seja "o certo". A influência da televisão e dos filmes de ação se faz muito presente hoje, independentemente da classe social: na linguagem, na estrutura das histórias, na estética mesmo. Então, procuro sempre encaminhar as aulas no rumo do que é realmente importante para elas, no que toca o cotidiano dessas crianças, do que está no imaginário, na cabeça e no coração delas, no que elas podem criar - em grupo e com propriedade. Elas podem descobrir que um guarda-chuva pode ser um remo mas, ao mesmo tempo, podem descobrir tanta coisa que nem tem a ver com o teatro!… Que a gente tem acesso a um montão de histórias se souber ler; que o pai ou a avó tem umas músicas bacanas para ensinar, se a gente quiser ouvir; que chegar a um acordo em grupo é difícil, mas, quando acontece, é muito legal; que a gente pode ver o mundo com olhos diferentes…tanta coisa!

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2 Comments

LIVIA
Jun 15, 2007 at 2:39 am

Valeu, Samantha!
O blog novo está muito fácil e gostoso de ler. Gostei!
Beijos do menino azul.

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MaxReinert
Apr 4, 2008 at 1:05 pm

Ahhhh se todo mundo desse esse espaço pra o Teatro!!!
Thx, Sam!

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