Japonês tem quatro filhos…

Postado em preconceito no dia 27/02/2009 |


Imagem do blog Panorama Nihon, do texto sobre A tímida miscigenação do povo japonês

A piadinha com o Hino à Independência tem outras versões, mas quando eu estava no primário as crianças zombavam de mim cantando assim porque meu pai era um dos únicos japoneses na cidade e, por azar, tinha mesmo quatro filhos. Um post compartilhado por @veriserpa no Google Reader me lembrou esta e outras humilhações (que eram chamadas de brincadeiras) que eu e meus irmãos sofremos por morarmos em cidades com poucos orientais – e mesmo quando passamos a conviver com orientais éramos excluídos por sermos mestiços. Destaco abaixo a parte final do texto no qual a carioca Lilly conta Sobre ser oriental no Brasil. Muitas das suas palavras, além de calarem fundo no meu coração, poderiam ser ditas por mim e por isso agradeço a ela por sua coragem em compartilhar estes momentos com os leitores. ;)

“Cresci assim, meio querendo ser oriental e meio me negando. Sendo brasileira e chamada de japonesa. Não adiantava dizer para mim: “você é bonita”. O que ficava na cabeça era: “japonês é feio” e o resto ia por associação. Vim para São Paulo e virei carioca. Japonesa paraguaia, japonesa falsificada, tudo quanto é tipo de rótulo que vocês possam imaginar. O que sempre me salvou na história foi ter um senso de humor grande e uma mente muito aberta. E ser muito sociável. Depois de anos de crise, posso dizer para vocês o que eu aprendi: existe gente feia e gente bonita em qualquer raça. Existe gente bonita por fora e feia por dentro. Assim como existe gente bonita por dentro e feia por fora. Hoje eu tenho orgulho de ser oriental. Orgulho do meu cabelo, da minha pele e da minha aparência jovem. Orgulho de ter recebido valores íntegros, noção de que o trabalho vale a pena. Orgulho de ter uma sensibilidade apurada, de estar atenta para a beleza das coisas, de um legado artístico, da organização, exercício da paciência, humildade. Valorizar a família, alimentação, gostar de verduras, legumes, modo de vida saudável. Orgulho de ser oriental e de amar os orientais. Dedicado a todos os orientais no Brasil. Conhecidos e desconhecidos. Desejo que todos possam algum dia inebriar-se com a dádiva de ser oriental.”

P.S. Ontem à noite eu conversava com meus filhos dizendo a eles que considero imprescindível que eles tenham a chance de viajar para os países de onde vieram seus ancestrais (sul da Europa por parte do pai, Japão e Alemanha por parte da mãe) para que possam se ver nas pessoas, enxergar seus biotipos como “normais” e “comuns” e para que se aceitem com suas características genéticas sem sofrimento, pesar ou revolta. Para mim morar no Japão representou esta reconciliação comigo mesma, a chance de encontrar roupas com minhas medidas (não fazer acertos em mangas e barras), usar qualquer xampu para meu cabelo (pois todos são lisos e levemente oleosos), encontrar vários produtos de maquiagem para meu tom de pele levemente amarelado e não ter vergonha de sorrir porque meus dentes não são branquinhos e alinhados.

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Sam @samegui Shiraishi

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Mãe, jornalista e blogueira no @avidaquer, hub multiplicador de cultura e conhecimento. Paranaense de alma nipônica morando na Mooca, apaixonada por gente.


6 Responses to “Japonês tem quatro filhos…”

  1. Lilly says:

    Sam,
    agradeço muito a citação. Depois que vim para São Paulo, percebi convivendo com outros orientais que o que eu sentia era comum a muitos. E é difícil admitir. Resolvi tomar a frente e falar por todos… Concluo que foi bom pela ótima repercussão.

    Um grande abraço.

  2. Herika says:

    Nasci e cresci em São Paulo. Sei muito bem como é ser “japonesa” naquele tempo, tinha muitas outras musiquinhas bem mais depreciativas que me irritavam profundamente.
    Por tempo demais carreguei o sentimento de ser rejeitadas das brincadeiras na escola por ser japonesa. Quantas vezes fui insultada por ser “supostamente” mais inteligente e pegar as vagas dos vestibulares.
    Nem preciso dizer que me identifiquei nesse post ;)
    Beijos!!!

  3. Sam querida, quando li o texto pensei muito em você, recebi muitas respostas de dúvidas que tinha a respeito de como um oriental deveria se sentir no Brasil. Um belo texto. bjs e um ótimo final de semana. :)

  4. Guilherme Camarine says:

    Bem… pelo menos eram criancinhas pequeninas que não sabiam o quanto a cultura japonesa é rica e que ter olho “puxado” não é nada de anormal. Os que tem zombavam ontem te chamam de gênio hoje! =D

  5. Tadeu says:

    Bem, eu sou japonês de alma, pena não ser ou não descender fisicamente.

    Babaquices daqueles que zoam com a cara dos descendentes, pois os japoneses são pessoas exemplares, ao contrário dos brasileiros. Povo idiota o nosso. Por isso que somos motivo de piada.

    Bem, talvez na próxima vida eu venha a nascer ]á ao inve´s de nascer na podridão do Brasil =z

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