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Inclusão social

Posted by Sam Shiraishi on May 27, 2007 in sam |

Duas notícias sobre inclusão social me chamaram a atenção nesta semana. Não são furos não, coisas de uma semana atrás na revista semanal que assino e nem sempre consigo ler na semana certa! , Tenho notado muitas notícias na mídia sobre a casa própria, que, segundo Silvio Santos detectou no seu finado “Show do Milhão”, é o maior sonho do brasileiro comum… tá bom, ninguém precisa ser o Patrão para saber disto, muito menos eu, que, após ralar no Japão para ter a minha moradia, vendi-a em Curitiba e agora estou na luta por ter uma na maior cidade do Brasil.
Um programa de urbanização em Belo Horizonte chamado Vila Viva me chamou atenção: lá não se pretende mudar a população de lugar, mas sim urbanizar (sim, traçar ruas, dar esgoto, etc) a própria favela. O sistema me lembrou o Cingapura aqui de São Paulo sobre o qual não sei muito a fundo, mas que na aparência me faz pensar que consiste na construção de edifícios simples no lugar onde estavam favelas. Daí o fato de os vermos em vários locais inusitados da Capital.
Como jovem repórter que ainda cobria Geral em Curitiba, acompanhei a “limpeza da cidade” feita pelo prefeito Rafael Grecca (sim, o que disse na Veja que até cemitério lá tinha que ser bonito) e lembro nitidamente de como foi feito. Os moradores de favela eram convidados a se retirar, com prazo marcado, e a policia militar os “ajudava” a retirar os pertences e desmontar os barracos, “conduzindo-os” com tudo a um novo bairro (Bairro Novo, no qual a palavra longe é um eufemismo exacerbado), onde ganhavam uma quantidade de lona para se estabelecer no novo terreno sobre o qual finalmente teriam uma escritura! Isto em pleno inverno de Curitiba, diga-se de passagem. Esta gente era gente como nós, mesmo na iminência da saída me ofereciam café em suas casas (sim, passamos por várias saias justas na vida) e procuravam sobreviver a tudo isto.
As diferenças do projeto curitibano de 12 anos atrás e da atual em BH é que hoje se pensa mais no social e, talvez, que o PT, que já foi muito envolvido e motivado neste movimento nacional pela moradia, seja prefeitura em BH há vários anos. O social não é só manter a pessoa perto de suas raízes (na favela mineira tinha uma senhora que há 40 anos mroava e criava cabras em plena cidade) e de seu emprego, mas também oferecer estrutura para as pessoas viverem e trabalharem. Em Curitiba o prefeito fez furor na época ao dar o nome de sua avó para a creche que abrigaria 40 crianças (num bairro onde se estabeleceriam cerca de 10 mil familias). Em BH, como a população local participava das decisões, uma das exigências foi a construção de três escolas de educação infantil, além das quadras de esportes e parques, que, como comprovam projetos na Mangueira e na Bahia, ajudam muito a tirar as crianças da linha do crime. Ter onde e com quem deixar as crianças seguras para trabalhar tem que ser um dos pilares para a inclusão social. Posso estar voltando à minha visão de mundo feminina e maternal, mas é um fato: criança sem escola, sem apoio, é um candidato ao submundo, ao crime.
Por falar em crime, remeti-me ao medo que temos dele na outra reportagem que me chamou atenção. Falava de David Cavallo, americano radicado na Bahia que coordena no Brasil o projeto One Laptop Per Child (OLPC), que pretende vender PCS especiais por cerca de 100 dólares para educação em lugares pobres. Cavallo diz que o interesse por nosso país veio do estudo de textos do educador Paulo Freire e que ele acredita que a informática ajuda a colocar em prática a pedagogia crítica de Freire, de ensinar a partir da realidade dos alunos. Na hora, ao ler que o projeto consiste em disponibilizar os computadores para que os alunos os levem para casa e possam continuar os estudos lá, com conexão sem fio e interface com os computadores de colegas, o crime organizado me veio à mente e temi. Num país em que os presos cariocas usam celulares para simular seqüestros em São Paulo e que apostam suas fotos fazendo churrasco no grill George Foreman dentro da cela na cadeia, como podemos confiar que o uso do computador em casa será para as crianças estudarem?
São vários fatores que fazem as crianças não conseguirem avançar no nosso país, não apenas a falta de acesso ao computador, mesmo que eu a considere importante. Mas não é tudo, há outros pré-requisitos para este acesso ser válido. Vivo uma experiência aqui com o filho da empregada doméstica que retrata bem o caso: separada do pai do menino, ela trabalha em vários locais, ficando pouquíssimo com ele, que almoça só depois da escola e não tem incentivo para nada, mesmo tendo vários confortos como TV a cabo e, claro, um computador próprio. Mas como estuda em escola pública, que agora tem aprovação automática, tenha o aluno aprendido ou não, o garoto aos nove anos não sabe ler o suficiente. De que adianta um computador se ele não vai ler o que tem nele? Enfim, eu e uma vizinha, uma senhora de 70 anos e com visão muito critica da sociedade, estamos fazendo um reforço com ele, ela dando aulas, eu emprestando livros para a mãe ler com ele em casa. Ainda acredito, como o fazem alguns críticos do OLPC no Brasil, que é preciso mais consistência pedagógica num plano de inclusão do que meramente oferecer um computador, é preciso ensinar a usar e pensar nas informações que ele pode nos oferecer.

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