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Feliz dia das bruxas…

Posted by Sam Shiraishi on Oct 31, 2006 in sam |

Feliz dia das bruxas… não acredito nelas, mas… andei lendo e descobri que pelo menos nas historinhas infantis elas são bem saudáveis.
Mamãe você parece uma bruxa!
A difícil relação dos primeiros ódios, dilemas e conflitos dos nossos filhos

“Mamãe você parece uma bruxa!” Outro dia escutei isso dos meus filhos porque eu estava pegando no pé deles. Disseram que sou a bruxa da limpeza do quarto, que só pensa em arrumar os brinquedos. Como é que, de repente, a gente passa a ser bruxa para o filho da gente?

Ô pergunta difícil de responder! Afinal quem quer ser a Madastra da Branca de Neve mesmo sendo ela (quase) a mais bela? Que dirá então ser a feia e solteirona Bruxa Onilda, tia que manda as Trigêmeas para dentro dos contos de fadas! Eu queria ser sempre a Princesa dos Power Rangers e não a bruxa malvada dos megazords. Mas as bruxas têm um papel importante no desenvolvimento psicológico do ser humano.

Descobri num artigo muito interessante em que a autora, Cristiane Madanêlo de Oliveira, cita Carl Jung e Jean-Yves Leloup, que as bruxas retratam o medo da gente. Elas são quem nos fazem vencer o medo da separação e o medo de ser rejeitado pela sociedade. E o que é melhor: as crianças (e nós também, daí o sucesso de filmes de terror) lutam e vencem contra o mal sem precisar brigar com ninguém amado.

Quando as crianças começam a perceber que não são parte da mãe — e que, coitados, coincidem com a chegada dos dentes, dos alimentos salgados, enfim da fase das descobertas — também começam a sentir medo de perder a mãe, sua garantia de segurança e proteção. Justamente neste peíodo, nós, mães, começamos a dizer “não!” com mais ênfase e, com isso, deixamos de ser só fadas-madrinhas. Podendo odiar a bruxa, a criança não precisa odiar a mãe. O Giorgio é uma prova dessa teoria: depois que a escola apresentou a Cuca, bruxa do Sítio do Picapau Amarelo, durante um mês, a personagem passou a povoar o imaginário dele, que a culpa até da chuva que o proíbe de brincar no parquinho. E eu deixei de ser a chata que não tem tempo de levá-lo ao parque.

————————–Eu te odeio!—————

Mas até acharmos uma Cuca, eu escutei algumas vezes “eu te odeio, você não é mais minha amiga” no período de egocentrismo dele, dos 3 anos. Sofri no começo, mas menos do que quando o Enzo passou por isso, pois já estava preparada e sabia que não era sério, era uma forma do meu filho manifestar suas emoções, porque as crianças pequenas precisam da ajuda da gente até para conseguir entender o que sentem.

Se eles dizem que te odeiam, na verdade te amam muito e estão ressentidos do tempo dispensado ao trabalho ou ao irmãozinho. Ou gostariam que você não fosse a bruxa da arrumação! (risos) Aqui em casa, o Enzo ainda tem alguns chiliques comigo porque às vezes (muito às vezes) eu ganho nos nossos jogos noturnos de super trunfo. Nesta hora ele me compara à Bruxa dos Megazords, que sempre quer ganhar a batalha contra os Power Rangers.

Fazer o que? Vestir o chapéu de bruxa e aceitar que nem sempre dá para ser fada, é ser Ora Fada, Ora Bruxa, como no conto da Sylvia Orthof, outro livro ótimo para falar das bruxas e do papel delas no mundo. Não uma bruxa clássica, como a de João e Maria, que come crianças ou a madrasta que convence o pai a abandoná-las na floresta, sequer a invejosa bruxa que castigou A Bela Adormecida ao sono porque não foi convidada para a festa de batizado dela ou a bruxa-vizinha dos pais de Rapunzel, que tomou a criança recém-nascida da mãe que desejara uma maçã do seu pomar na gravidez. Mas no imaginário infantil talvez eu
seja assim.

Quando o Giorgio quebra alguma coisa na cozinha, eu costumo dizer: “sai daqui, tem vidro, machuca”. E ele entra sempre num choro doído falando: “você me mandou embora, mamãe?”, porque eu falei “sai daqui”. Para as crianças da idade dele tudo é exacerbado, uma avalanche de emoções.

Trancando-os na torre

E a figura da bruxa ajuda a vencer estas situações, pois elas fazem coisas que lembram (vagamente) o que a gente faz no dia-a-dia. Algumas trancam as princesas na torre (Rapunzel e A Bela Adormecida, e até a Fiona, do Shrek) ou até submetem os heróis a trabalhos pesados (como Hades com Hércules, a bruxa de João e Maria e a madrasta-bruxa de Cinderela), como eu faço com meus pequenos mandando-os arrumar a bagunça ou ficar de castigo no quarto sem TV “para pensar um pouco”.

Assim, concluí que as bruxas, sejam elas do Power Rangers, das Princesas Disney ou do Harry Potter são uma vitamina a mais, talvez (ô chavão) “um mal necessário”. Mas na atualidade temos que apresentá-las para nossas crianças sem rotular este tipo de personagem como mau ou bom e sim mostrando que ele pode “estar” bom ou mau diante diferenciadas situações que enfrenta e da forma como reage a elas.

Ao se identificar com os heróis (como meus pequenos heróis em casa) ou os vilões, a criança está resolvendo, inconscientemente, sua situação pessoal. Se esta experiência for boa, garantem os especialistas, ela
conseguirá enfrentar e superar o medo presente à sua volta e alcançar o equilíbrio na fase adulta. Não é exatamente isto que sonhamos para eles?

Então vamos aos livros para contar estorinhas de bruxas, princesas e heróis.

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4 Comments

Sam
Feb 13, 2007 at 2:50 pm

São Paulo, 27 de setembro de 2006

A magia das bruxas no desenvolvimento da criança

A escolha da criança não recai sobre o certo ou o errado, mas, sim, sobre a personagem que mais gosta e não gosta.

Muita gente se pergunta: Por que Paulinas, uma editora tão especializada em literatura religiosa, tem tantos livros infantis sobre bruxas? Alguns, mais radicais, ficam arrepiados só de pensar na idéia. A resposta é simples: O conto de fadas apresenta à criança os dilemas, as dificuldades, os obstáculos próprios da vida. Eliminar o mal nas histórias infantis é fingir que o lado escuro não existe, o que incapacitará nosso pequeno leitor, no seu desenvolvimento, a reconhecer a natureza ambígua do homem.

Somos criaturas incompletas e a grande aventura em viver é a busca incessante de encontrar um significado em nossa existência e desfrutarmos a vida em sua plenitude. Uma busca que começa logo na infância, a fase de desenvolvimento mais importante na construção do “eu”. Crescer dói e consome muita energia.

Um dos maiores desafios para os pais é ajudar seus filhos a encontrar sentido em suas vidas. O psiquiatra infantil austríaco Bruno Bettelheim, um dos educadores e terapeutas infantis mais respeitados do mundo, vê a literatura como o melhor canal para transmitir informações mais adequadas e promover, na criança, a capacidade de encontrar sentido na vida.

Os contos de fadas apresentam à criança os dilemas, as dificuldades, os obstáculos inevitáveis, próprios da vida, em uma visão de mundo compatível com o nível psicológico e emocional da criança. Ao mesmo tempo, mostram que, com coragem e perseverança, os medos e as opressões podem ser encarados e derrotados.

As tramas são singelas e as personagens, simples e diretas; o mal e o bem têm o mesmo poder e se apresentam nas personagens como gigante, dragão, bruxa, fada, príncipe, princesa. No universo infantil não existe o “meio termo”: ou uma pessoa é boa ou é má.

A polarização das personagens - boas ou más - é percebida pela criança, ao passo que a ambivalência não lhe faz sentido, já que sua escolha não recai sobre o certo ou o errado, mas sim sobre a personagem que mais gosta e a que não gosta. A vitória de “suas altezas” ou de seus “heróis” é o que a atrai, porque a criança quer ser como eles: bem-sucedida nas suas lutas. E também porque sabem que “o mal dá o troco à pessoa que o produziu”.

Eliminar o mal nas histórias infantis é fingir que o lado escuro não existe, o que incapacitará a criança de reconhecer a natureza ambígua do homem. As crianças sabem que são boas e algumas vezes não (ainda que não queiram). Como, então, poderão lidar com essa situação se o mundo apresentado nega a presença do mal?

Esconder monstros, ogros, bruxas é não permitir que construam suas fantasias para conhecer tais seres e elaborarem formas de controlá-los, além de impedir que aprendam a lidar com seus medos e angústias. Negar a existência da sombra significa negar, também, a existência da luz.

Os contos de fadas sempre apresentam um final feliz. Esse desfecho dá segurança e coragem diante das dificuldades, são estímulos para que a criança não desanime e se torne um ser humano criativo, assim como os heróis, príncipes e princesas que entraram na floresta escura e de lá saíram vitoriosos.

Outro ponto relevante: não se explica conto de fadas. Quando uma história se torna significativa para uma criança (sabemos disso porque elas a lêem ou pedem para lermos repetidas vezes), cabe somente a ela interpretar o significado daquela trama. Ainda porque o mesmo conto lido em diferentes fases do desenvolvimento terá diferentes interpretações.

“O conto de fadas diz à criança que, embora existam bruxas, nunca se esqueça de que também existem boas fadas (…) Os mesmos contos asseguram que o gigante feroz pode ser vencido com esperteza pelo homenzinho inteligente - alguém que parece ser tão impotente quanto a criança se sente.” (Bruno Bettelheiem).

Bruxas boas e más
Só para finalizar, há, sim, muitas bruxas boas, muito boas, que se metem a nos dar lições de vida, e outras que cometem grandes e engraçados fiascos por serem tão atrapalhadas na hora de fazer o que manda a lenda. Uma delas, já bem velha, coitada!, cismou que quer se casar e está voando por aí à cata de um marido. Cuidado! Quer saber os detalhes? A professora mineira Elizete Lisboa conhece essa bruxa e conta tudo no livro A bruxa mais velha do mundo, escrito em tinta e em braile, para os que, como Elizete, não conseguem enxergar.

Há outras, malvadézimas!, que surgem na hora mais escura da noite. Uma delas entrou no espelho, com sua capa negra e duas caras - uma, linda; a outra, de sapa velha!!! Vai ter coragem de encarar? Então, abra No escuro - o espelho da bruxa, de Ernani Ssó, e participe de uma aventura eletrizante com o garoto Beto. Você vai ver que, com as armas da imaginação, é possível descobrir a coragem e vencer os seres inventados pelo medo e pela noite.

Há as bruxinhas graciosas, que vivem de fazer o bem. Elisa, a bruxa-menina de O pacote que tava no pote, de Eloí Elisabet Bocheco, recebe da família um pacote, cuidadosamente guardado. O embrulho deve ser desfeito com a ajuda da Andorinha Lica, em véspera de lua cheia. A bruxinha não sabe onde está a andorinha, mas não hesita em pedir ajuda aos reis e rainhas dos bosques - abelha, coruja, pardal, sagüi, borboleta e água.

A cada parada, ela uma descoberta, um desafio, um desejo de superar-se. Eis o grande ensinamento guardado no pacote: entre o princípio e o fim, há sempre um meio. Mundo velho que se renasce a cada dia, a ilustradora Mari Ines captou o tom da história e correu seu lápis “redondo e doce” e ajudou Eloí a reviver a magia das lembranças de meninice. Este livro foi selecionado para o Programa Nacional do Livro Didático -PNLD.

Agora, imagine uma bruxa inconformada com o fato de ter sido trocada por anjinhos, riachos e flores. Decide, então, fazer uma visita à casa de Sylvia Manzano, escritora de livros infantis que, em seu entender, a preteriu. Insiste que as crianças não gostam disso e estão reclamando again. Desta vez, ela, recém-chegada dos States, usa a visita para ficar mais íntima da hóspede: vai ficando, implicando, brigando e se achegando, trocando confidências… Desse jeito, essa bruxa de meia-tigela acaba tornando imperdível o livro Ferdinanda e eu - De novo…

http://www.paulinas.org.br/imprensa/sl_press_release.aspx?ItemID=204

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Halloween « A vida como a vida quer
Oct 31, 2007 at 4:41 pm

[...] de algumas preocupações de mãe sobre os malefícios do ocultismo na vida dos meninos. Chama-se Feliz dia das bruxas…e  foi publicado no Desabafo de Mãe. O portal está fora do ar, mas o link aqui [...]


 
Halloween | Sam Shiraishi
Oct 24, 2008 at 5:52 pm

[...] de algumas preocupações de mãe sobre os malefícios do ocultismo na vida dos meninos. Chama-se Feliz dia das bruxas…e foi publicado no Desabafo de [...]


 

[...] porque a editora achou que eu estava muito envolvida com os livros para escrever com isenção) e Mamãe você parece uma bruxa! no qual eu falava que todas vivemos uma fase em que somos bruxas aos olhos dos filhos. A reflexão [...]


 

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