Eu me rendo

Postado em Comportamento no dia 01/09/2007 |

Minha irmã me enviou este texto, que recebeu como sendo da Danuza Leão. O estilo se assemelha mesmo, levemente ácido, com uma verdade crua que soa como um afago (a verdade é calmante, na minha opinião). Como é longo, coloquei num google docs chamado Eu me rendo.

“Quantas mentiras nos contaram; foram tantas, que a gente bem cedo começa a acreditar e, ainda por cima, a se achar culpada por ser burra, incompetente e sem condições de fazer da vida uma sucessão de vitórias e felicidades.
Uma das mentiras: É a que nós, mulheres, podemos conciliar perfeitamente as funções de mãe, esposa, companheira e amante, e ainda por cima ter uma carreira profissional brilhante.
É muito simples: não podemos.
Não podemos; quando você se dedica de corpo e alma a seu filho recém-nascido, que na hora certa de mamar dorme e que à noite, quando devia estar dormindo, chora com fome, não consegue estar bem sexy quando o marido chega, para cumprir um dos papéis considerados obrigatórios na trajetória de uma mulher moderna: a de amante.
Aliás, nem a de companheira; quem vai conseguir trocar uma idéia sobre a poluição da Baía de Guanabara se saiu do trabalho e passou no supermercado rapidinho para comprar uma massa e um molho já pronto para resolver o jantar, e ainda por cima está deprimida porque não teve tempo de fazer uma escova?
Mas as revistas femininas estão aí, querendo convencer as mulheres – e os maridos – de que um peixinho com ervas no forno com uma batatinha cozida al dente, acompanhado por uma salada e um vinhozinho branco é facílimo de fazer – sem esquecer as flores e as velas acesas, claro, e com isso o casamento continuar tendo aquele toque de glamour fun-da-men-tal para que dure por muitos e muitos anos.
Outra grande, diz respeito à mulher que trabalha; não à que faz de conta que trabalha, mas à que trabalha mesmo. No começo, ela até tenta se vestir no capricho, usar sapato de salto e estar sempre maquiada; mas cedo se vão as ilusões. Entre em qualquer local de trabalho pelas 4 da tarde e vai ver um bando de mulheres maltratadas, com o cabelo horrendo, a cara lavada, e sem um pingo do glamour – aquele – das executivas da Madison.
Dizem que o trabalho enobrece, o que pode até ser verdade. Mas ele também envelhece, destrói e enruga a pele, e quando se percebe a guerra já está perdida.
Não adianta: uma mulher glamourosa e pronta a fazer todos os charmes – aqueles que enlouquecem os homens – precisa, fundamentalmente, de duas coisas: tempo e dinheiro.
Tempo para hidratar os cabelos, lembrar de tomar seus 37 radicais livres, tempo para ir à hidroginástica, para ter uma massagista tailandesa e um acupunturista que a relaxe; tempo para fazer musculação, alongamento, comprar uma sandália nova para o verão, fazer as unhas, depilação; e dinheiro para tudo isso e ainda para pagar uma excelente empregada – o que também custa dinheiro.
É muito interessante a imagem da mulher que depois do expediente vai ao toalete – um toalete cuja luz é insuportavelmente branca e fria, retoca a maquiagem, coloca os brincos, põe a meia preta que está na bolsa desde de manhã e vai, alegremente, para uma happy hour.
Aliás, se as empresas trocassem a iluminação de seus elevadores e de seus banheiros por lâmpadas âmbar, os índices de produtividade iriam ao infinito; não há auto-estima feminina que resista quando elas se olham nos espelhos desses recintos.
Felizes são as mulheres que têm cinco minutos – só cinco – para decidir a roupa que vão usar no trabalho; na luta contra o relógio o uniforme termina sendo preto ou bege, para que tudo combine sem que um só minuto seja perdido.
Mas tem as outras, com filhos já crescidos: essas, quando chegam em casa, têm que conversar com as crianças, perguntar como foi o dia na escola, procurar entender por que elas estão agressivas, por que o rendimento escolar está baixo.
E ainda tem as outras que, com ou sem filhos, ainda têm um namorado que apronta, e sem o qual elas acham que não conseguem viver . Segundo um conhecedor da alma humana, só existem três coisas sem as quais não se pode viver: ar, água e pão.
Convenhamos que é difícil ser uma mulher de verdade; impossível, eu diria. Parabéns para quem consegue fingir tudo isso….”

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Sam @samegui Shiraishi

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Mãe, jornalista e blogueira no @avidaquer, hub multiplicador de cultura e conhecimento. Paranaense de alma nipônica morando na Mooca, apaixonada por gente.


9 Responses to “Eu me rendo”

  1. Sam, este teu texto é cheio de bom senso. Não se pode ser uma esposa maravilhosa, uma amante maravilhosa, uma mãe maravilhosa e uma profissional maravilhosa ao mesmo tempo. Mas cada uma destas etapas é importante na vida das mulheres, acho que a solução seria colocar uma prioridade para cada uma em diferentes épocas da vida. E principalmente ter a cumplicidade e a compreensão do parceiro, senão nada feito.
    Um beijo e boa semana.

  2. Maria Augusta
    só sinto porque o texto foi reproduzido tantas vezes nos blogs que eu já não consigo mais confirmar o link original e verificar se, de fato, é da Danuza Leão. Li dois livros dela e o último, Quase Tudo, foi uma delicia. E tem a marca desta ironia e visão de mundo que este texto passa. Se não é dela, o fato é que é muito bom e verdadeiro.
    E você tem razão, que sorte têm as mulheres que encontram homens que nos veem com este realismo.
    Beijos.

  3. Evellyn says:

    Sam,
    já conhecia esse texto e ele é a mais pura verdade. Recebi de uma amiga como um artigo de jornal, se não me engano da Folha de SP, e era da Danuza, sim, muito antigo…
    Não adianta tentar ser 100% em tudo, o máximo que a mulher vai conseguir é ser 100% frustrada. Essa imagem que as revistas femininas tentam nos fazer acreditar de que é possível ser mãe perfeita, profissional exemplar, esposa eternamente sexy e inteligente, é irreal! Somos humanas e erramos, temos falhas… Se eu conseguir ser pelo menos boa em cada papel que desempenho, sem correr atrás da perfeição e mantendo minha saúde em paz, já ficarei muito feliz.
    Beijos e bom dia

  4. Marcele says:

    Esta tal “mulher de verdade” que concilia tudo com perfeição me soa artificial e vazia. Tudo o que fazemos tem que contribuir para o nosso crescimento e bem estar e não para provar para alguém que conseguimos. Não importa o que você está fazendo, mas como está fazendo. Se você decidiu deixar de trabalhar para se dedicar aos filhos, ótimo!! Desde que o faça com prazer. Mas se a sua vida não permite, ou se você não quer deixar o profissional de lado, ótimo também!! A melhor mãe para qualquer filho é a mãe feliz e realizada!! Quanto a ser sexy o tempo todo, acho que desgasta a imagem. O que torna uma pessoa interessante é exatamente o mistério… por isso que eu trabalho de tênis e cara lavada, assim, quando me vêem produzida, as pessoas conseguem se surpreender. Qual é a graça de uma mulher que vai a uma festa com “cara de todo dia”??

  5. lunna says:

    Sempre achei interessante essa forma de visão das coisas. Acho que podemos ser sim tudo que desejamos, depende apenas de nossos objetivos práticos.
    Por exemplo: até hoje não pensei em ser esposa ou mãe. Olho pra essas coisas como se fossem horizontes bem distantes…
    Bem, tive tempo de ser psicologa e dizem as mas línguas que fui boa nisso (risos). E através da psicologia é que eu questiono o que podem ou não ser as mulheres, porque tudo é sempre questão de uma bem simples: querem ser mulheres ou modelos de perfeição baseadas num estereótipo criado por uma sociedade que nunca compreendeu o significado da palavra perfeição?
    Abraços meus a você…

  6. Lila Fonseca says:

    Cara, Danuza,
    lamento desapontá-la, mas a senhora está com informações desatualizadíssimas sobre as mulheres!

    Eu poderia começar com o exemplo da vizinha-da-mãe-da-minha-cunhada, mas isso levaria linhas intermináveis desta mensagem que, pretendo, seja breve!
    Como já dizia aquele estripador: “Vamos por partes”!

    As ‘mentiras’ da quais você reclama são feitas e refeitas diariamente por milhares, senão milhões, de mulheres nesta cidade, País e mundo afora. Raras (e fúteis) são as mulheres que não as cometem!

    Conciliar as tarefas de mãe e profissional é, nada mais, que uma das vantagens de ser mulher. Numa comparação besta com o sexo masculino: como é que o homem consegue ser um profissional competente, ir ao happy hour do trabalho, jogar sinuca com a galera da antiga, o futebol com os amigos do bairro e o bilhar com os amigos casados? Se eles têm tempo pra fazer isso (e ficar cantando e marcando encontro com aquele monte de mulheres lindas que passam pelas ruas), porque nós, mulheres, não teríamos tempo de conciliar as outras tarefas, que, em mais uma comparação, parecem ser mais úteis?

    Um filho recém-nascido requer a mesma atenção que nossos diretores, fornecedores, clientes e tantos outros do âmbito profissional. Mas por sermos mulheres, colocamos algo mais nesse ‘atendimento’. Colocamos AMOR, CARINHO, ZÊLO etc.
    É demais pra você comparar seu filho com os profissionais de sua empresa? Lamento, mas preciso chamá-la pra vida real! Afinal, de onde você vai tirar dinheiro pra sustentar seu mais valioso bem? Porque tratar de maneira diferente a empresa que te é tão necessária?

    Ah, quanto aos pratos rápidos, não sei se você conhece algo inventado há alguns anos chamado INTERNET. É uma ferramenta ótima pra procurar receitas rápidas pro jantar (e serve pra outras coisas, também!)! Se precisar de ajuda, procure qualquer mulher casada que trabalhe fora e que tenha uma reunião de Pais e Mestres agendada, logo depois da reunião com o fornecedor de Curitiba! Na certa, essa mulher vai saber lhe explicar o que é a INTERNET!

    Se você quiser se vestir melhor, separe as roupas que pretende utilizar durante a semana e coloque-as em cabides próximos. Leve, também, alguns pares de roupas pro escritório. Vai que você deixa cair macarrão na camisa branca…
    Lembre-se: saias e vestidos combinam mais com sapatos de salto (Não precisam ser altos. Nem sei de onde você tirou essa idéia!).

    Cabelo arrumado, unhas bem feitas, asseio… isso minha mãe me ensinou quando eu fiquei menstruada pela primeira vez. Sempre arrumamos tempo pra isso, assim como arrumamos tempo pra ir ao banheiro, à copa beber água etc.

    Hidromassagem: troque por uma caminhada do escritório até em casa. Três vezes por semana são suficientes, além de economizar combustível!
    Radicais livres: vocês pode combatê-los fazendo uma boa alimentação. A não ser que você prefira ficar com o ‘peixinho com ervas ao forno’…gosto é gosto!
    Massagem: pode ser feita pelo seu companheiro nas preliminares (ou pós) da transa! Não custa muito e é mais intenso. Bem melhor do que ter as mãos de estranhos em seu corpo!

    Se você fizer coisas tão básicas assim, tenho certeza de que nem vai precisar de empregada em casa! Mas, gosto e preguiça não se discutem!

    Já percebeu que discordamos em alguns casos, né!?
    Mas concordo com você no que diz respeito a precisarmos de ar, água e…pão? Ora essa, o pão pode ser trocado por frutas…ih, esse assunto de novo!

    Bem, deixe-me trabalhar, pois o sustento dos meus depende do meu desmpenho na empresa!

    Boa sorte com suas redações!

    Atenciosamente,

    Mulher (acima dos 35 anos), trabalhadora, mãe de adolescente (que vai muito bem no colégio, obrigada!), unhas e depilação feita, panturrilhas doendo da caminhada de ontem, estômago satisfeito pelo jantar leve (que eu mesma preparei)…só as olheiras é que estão tentando aparecer, mas também, fui dormir lá pelas 3 da manhã ouvindo meu marido sussurrando ao meu ouvido palavras que, se repetidas em público, poderiam causar atentado violento ao pudor!

    P.S.: É a isso que eu me rendo! À fazer tudo aquilo a que tenho competência!

  7. [...] aconteceu uma coisa engraçada no blog. Chegou um comentário que valia um post. Convido para que leiam lá o texto integral de Lila Fonseca. A frase final diz: “É a isso que eu me rendo! A fazer tudo [...]

  8. Anny says:

    Oi Sam:
    Li os 3 livros de Danusa e concordo com a opinião dela. Impossível ser uma mulher de verdade segundo os padrões inventados pelas tais revistas femininas. Como também impossível ser um homem de verdade, segundo os mesmos padrões. Então eu me rendo a ser imperfeita, capaz de gostar de mim assim mesmo. E como foi duro aprender tudo isto…

    Anna
    eu tb li três livros da Danuza e gosto muito dela. Quase tudo, o ultimo que li, foi fundamental para eu entender a personalidade dela e até digerir adequadamente seus textos.
    Beijos
    Sam

  9. @thereza_sobral obrigada por me permitir relembrar o Eu me rendo da Danuza Leão http://bit.ly/bT7j8j (foi dica da @blogdati) ;)

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