Entre babados e balangandãs
Postado em Consumo de Cultura no dia 23/02/2009 |
Durante todo mês de fevereiro Carmen Miranda, a primeira pop star brasileira, tem sido homenageada em virtude do centenário de seu nascimento. Na sexta-feira, presa no trânsito de véspera de feriado de carnaval na saída para a Imigrantes, ouvi uma reportagem da CBN sobre a programação especial que o Sesc Ipiranga (Rua Bom Pastor, 822, São Paulo, SP) teria de 17 a 24/02 com filmes, shows, oficinas, bate-papo e teatro em homenagem à Pequena Notável.
A notícia reforçava a importância de Carmen, considerada uma mulher à frente do seu tempo e dona de uma imagem que não envelhece, ao contrário, se perpetua. E citava o livro “Carmen – Uma biografia” (de Ruy Castro, Companhia das Letras, 2006) que li com grande satisfação e alegria na época do seu lançamento. O biógrafo é enfático ao afirmar que “ela foi praticamente a inventora da música popular brasileira como cantora, criando um modo brasileiro de cantar. Foi uma das artistas mais exuberantes e criativas de sua época e sua forte personalidade inspirou diversas cantoras surgidas no decorrer dos anos 30″. Ruy Castro esteve no Sesc no dia 18/02 no bate-papo “O que é que a Carmen Miranda tem?” e foi uma decepção saber que perdi um evento como este! Adoraria ter participado.
Como li a obra sei que em sua obra Ruy contextualiza para o leitor este papel de “desbravadora” de Carmen, que se tornou a primeira mulher a se firmar num cenário musical no qual eram cultuados apenas cantores (grandes nomes eram Francisco Alves, Orlando Silva e Silvio Caldas), retratos de um país machista no qual as mulheres não tinham vez e jamais tinham sido estrelas. Portuguesa de nascimento, mas brasileira de coração, ela consagrou o Brasil e firmou características da cultura brasileira dançando e cantando sambas e marchinhas, de certa forma concluindo o trabalho iniciado décadas antes por Chiquinha Gonzaga. Acusam-na, há muito tempo, de ter estilizado para o mundo uma mistura de elementos da baiana e da mulata que lançou um esteriótipo da mulher brasileira com braceletes em tornozelos, pulsos e braços, brinco em círculo, turbante na cabeça, salto plataforma (uma criação dela para disfarçar sua pequena estatura, 1,53m) e parte do colo e cintura de fora. Mesmo com braços e parte das pernas à mostra, notem que Carmen não era uma mulher que abusava da sensualidade ou fazia o tipo femme fatale, por outro lado, ela conquistou a Broadway e Hollywood com sua veia cômica. E creio que aí mora parte da rejeição que os brasileiros puristas e considerados cultos sentem por sua figura há tantas décadas.
Apaixonada que sou pelo que Carmen representou, descubro que perdi uma intensa e primorosa programação sobre ela e bem aqui, num Sesc próximo de meu bairro.
Mas nem por isso deixarei de comentar aqui as manifestações que homenagearam a Pequena Notável nesta semana de carnaval.
- Ná Ozetti cantou, no dia 17/02 às 21h, parte do repertório de Carmen. Com uma abordagem original da obra, a cantora prometeu um espetáculo minimalista, que não perde de vista os balangandãs daquela que inventou o modo de cantar sambas e marchinhas.
- Sapo Banjo Orquestra, no dia 20/02 às 20h, fez uma abordagem de banda de underground (composta de sete musicos jovens) que homenageou a cantora com um repertório instrumental especial (ska misturado com rock e ragga).
- Yvette Matos e Banda, no dia 21/02, às 17h, cantou e contou histórias e sátiras sobre os símbolos de brasilidade, homenageando também compositores que Carmen gravou e imortalizou como Assis Valente, Ary Barroso, Lamartine Babo, Dorival Caymmi.
- O trio Revista do Samba, no dia 22/02, às 17h, apresentou o Especial Carmen Miranda, reunindo em um só show, um repertório da cultura musical brasileira que tem influenciado gerações de cantores e compositores.
E ainda dá tempo de ver dois espetáculos grátis, livres para todos os públicos que acontecem na Área de Convivência:
- Nas Batucadas da Vida, dia 23/02 às 17h: Voz, violão, baixolão, flauta, bandolim e percussão num show que destaca os elementos essenciais para uma homenagem do tamanho da artista Carmen Miranda. A promessa é de repertório eclético, figurino, interpretações originais, textos, citações e outros elementos.
- Uli Costa e Bando da Rua , dia 24/02 às 17h: A vocalista do grupo Sandália de Prata se apresenta com o grupo “O bando da Rua” (formado por violão, cavaco, percussão e flauta) num repertório para Carmen, destacando os figurinos e adereços que marcaram sua personalidade.
E acontece também uma oficina de Balangandãs Carnavalescos com confecção de adereços para cabeça, braços, pulseiras, fantasias de baiana de papel crepom, decoração de latas quadradas para brincar de “pé de lata” (imitação das sandálias plataformas de Carmen), confecção de pandeiros e chapéus de “malandro”. Dias 23 e 24/02, das 14h às 16h, grátis, mas com recomendação etária a partir de 10 anos. Retirar ingressos com 1h de antecedência na bilheteria da Unidade.
Sam @samegui Shiraishi
Mãe, jornalista e blogueira no @avidaquer, hub multiplicador de cultura e conhecimento. Paranaense de alma nipônica morando na Mooca, apaixonada por gente.





Oi Sam. A nossa Carmen (esta é partilhada, de verdade, sim) era muito à frente do seu tempo, sim. Não li a biografia mas adoro Ruy Castro. Li dele “O Anjo Pornográfico” e adorei. bjs
Sam,
Passei a minha infância ouvinda músicas e vendo filmes com a Carmem Miranda. Na minha adolecência fui aos Estados Unidos ,quando eu dizia que era brasileira ,os americanos cantavam um pedacinho de alguma música cantada por ela como uma cortesia para mim, o que me tornava feliz.
Gostei muito do seu blog,conhecí durante uma aula do professor Vaz.
Heny.