O Conar e o risco da autorregulamentação

Postado em Ativismo Social e Sustentabilidade no dia 12/07/2011 |

“Os preceitos básicos que definem a ética publicitária são:

- todo anúncio deve ser honesto e verdadeiro e respeitar as leis do país,
- deve ser preparado com o devido senso de responsabilidade social, evitando acentuar diferenciações sociais,
- deve ter presente a responsabilidade da cadeia de produção junto ao consumidor,
- deve respeitar o princípio da leal concorrência e
- deve respeitar a atividade publicitária e não desmerecer a confiança do público nos serviços que a publicidade presta.”
Conar

Eu cresci numa sociedade com liberdade vigiada. Em teoria o Estado era democrático, mas na prática vivíamos sob um regime de muito controle social por conta da Ditadura Militar. Como meu avô Juca Hoffmann foi deposto por militares (numa ação daquelas de filme, com armas na cabeça e truculentos retirando-o do gabinete da prefeitura) e era “temido” por suas ideias que tendiam ao socialismo, nossa família aprendeu a se controlar em suas ideias. A família do Gui, pelo contrário, passou a vivenciar uma postura política mais ativa na geração dos pais dele, daí eles optarem por um papel mais protagonista nas lutas sociais e políticas que mudaram o Brasil no final da década de 1970 e meados de 1980.

Disso tudo, por ter crescido vendo a imagem da censura, autorizando e dizendo qual a idade certa para cada programa que víamos na TV, eu aprendi a julgar o que eu via. E da mesma forma eu controlo o que meus filhos podem ver, levando muito de perto cada comercial, cada novo programa (assisto sim, até desenhos, algum tempo antes de dizer que pode ver e ainda fico ouvindo para sacar que valores são passados). Mas o que noto é que há uma geração que não viveu a censura, não viveu a ditadura, gente que está na comunicação mas nem “cara pintada” foi. Claro que para ter opinião não é condição sine qua non ser velho ou ter vivido as coisas e sofrido na pele, mas é importante ter noção do processo social que nos leva a escolhas que mudam o controle ou a regulamentação da nossa vida.

Esta novela toda aí acima foi um prelúdio da conversa acerca do Conar, tema de uma blogagem coletiva promovida pelo Instituto Alana na última semana. O Conar nasceu no meio da tal censura da qual falei no começo.

“O Código Brasileiro de Autorregulamentação Publicitária nasceu de uma ameaça ao setor: no final dos anos 70, o governo federal pensava em sancionar uma lei criando uma espécie de censura prévia à propaganda.”

A história oficial conta que, “diante dessa ameaça, uma resposta inspirada: autorregulamentação, sintetizada num Código, que teria a função de zelar pela liberdade de expressão comercial e defender os interesses das partes envolvidas no mercado publicitário, inclusive os do consumidor”.

Grandes nomes da época – Petrônio Correa, Luiz Fernando Furquim de Campos e Dionísio Poli – representaram as agências, os anunciantes e os veículos de comunicação, articulando o reconhecimento do Código pelas autoridades federais, convencendo-as a engavetar o projeto de censura prévia e confiar que a própria publicidade brasileira era madura o bastante para se autorregulamentar.

Com a aprovação social da ideia, surgiu o Conar (Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária), criada como uma ONG encarregada de fazer valer o Código Brasileiro de Autorregulamentação Publicitária, entidade que recebe e administra processos éticos e nestes 30 anos resolveu conflitos.

Recentemente, porém, o Projeto Criança e Consumo, do Instituto Alana, sentiu que não podia mais confiar no parecer do Conar. Como acompanho os trabalhos deles, em especial com a marca em questão, creio que não foi uma experiência isolada, mas foi a mais grave e para discutir o tema de forma democrática eles convidaram blogueiros a opinarem:

“O parecer do Conar mostrou que a autorregulamentação não funciona. E vc, o que acha? Participe da nossa blogagem coletiva http://migre.me/5c2Tg

Minha visão é de que temos maturidade para autorregulamentação sim, mas não temos ainda maturidade como consumidores (de produtos palpáveis ou de produtos culturais) para escolher e assumir nossas escolhas. Está errado ver marcas que colocam mensagens subliminares em filmes infantis e em jogos eletrônicos, sim, sem dúvida, assim como sempre esteve errada a venda casada de comida e brinquedo.

Mas há também uma falha dos pais no acompanhamento destas ofertas, na orientação e educação dos novos consumidores, ensinando às novas gerações que as marcas podem estar lá, mas não são “o norte” da nossa vida, a condição sine qua non da nossa felicidade.

Quem compra são os pais, mas sobretudo quem ensina o que realmente tem valor na vida são eles. As crianças só aprendem que é melhor o computador da maçã porque um pai, um tio, uma mãe ou todos juntos contaram insistentemente para ele que era assim, que quem compra estes produtos é mais “cool”, mais “rico”, mais “gatinha”, é “gente diferenciada”. Precisamos discutir a regulamentação da propaganda, aberta ou subliminar, na publicidade para as famílias, sim, sem dúvida. Mas urge que encaremos o fato de que ao endeusar marcas nós nos tornamos títeres e perdemos não só nossa liberdade de expressão, mas nossa capacidade de existir com independência e de coexistir em harmonia.

#prapensar

Quer participar e dar sua opinião também? Conte em seu blog (e acho que quem não tem blog pode ser via Facebook, Orkut, Twitter): o que você pensa sobre a ética na publicidade hoje? Como podemos coibir os excessos e proteger nossas crianças dos apelos comerciais? Até 14 de julho, você pode escrever um post no seu blog e publicar o seu link nos comentários logo abaixo. O Criança e Consumo promete divulgar as diversas opiniões e assim criar uma grande discussão sobre o tema.

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Sam @samegui Shiraishi

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Mãe, jornalista e blogueira no @avidaquer, hub multiplicador de cultura e conhecimento. Paranaense de alma nipônica morando na Mooca, apaixonada por gente.


14 Responses to “O Conar e o risco da autorregulamentação”

  1. Andréa says:

    Sá,

    Eu sou a favor da liberdade de expressão, a favor da democracia. E acho que qualquer tipo de censura, por mais que seja com boa intenção, é sempre maléfica. Os pais é que tem o dever de orientar bem seus filhos. Nós, como pais, é que temos que ensinar nossos filhos a não serem consumistas, a não dar importância a estas coisas. Temos que ensiná-los a valorizar o “ser” e não o “ter”.

    Sempre que a gente abre mão da liberdade de expressão, ainda que seja a favor de uma causa politicamente correta, estamos também abrindo uma brecha para que venham a legislar e interferir em nossa própria liberdade de expressão – e num futuro, podemos ser nós os censurados, em nome, claro, de uma causa considerada por alguns como “politicamente correta”. Por isso, acho que a democracia e a liberdade de expressão de cada um são bens maiores a serem resguardados, sempre.

    Sam @samegui Shiraishi Reply:

    Nada como alguém que nos conhece quase a vida toda para compreender em profundidade o que queremos dizer. Muitíssimo obrigada por continuado a reflexão da censura no comentário, An!
    Volte mais vezes!

  2. Eu lembro bem deste tempo horrível, quando tudo era policiado ( a velha Solange, nos certificados de censura). Algumas vezes, seria cômico se não fosse trágico. Certas nulidades deixavam passar coisas que eles não tinham a mínima condição de entender. Mas, passou!!! O Guilherme Arantes disse bem.
    Quanto aos dias atuais, penso que a sociedade necessita urgente de crescimento emocional. Pessoas sssumindo suas responsabilidades, postura social, educação e preparação das gerações que estão aí. Só assim, nos livramos de certos riscos, inclusive de agressões visuais ou do lixo abatumante.
    Orientar os jovens é primordial, dentro de casa. O problema é que alguns pais nem sabem como fazer. Então, sobram pessoas perdidas, com tendências egocêntricas que pensam que podem passar por cima de quem lhe “incomoda”.

  3. @gpavoni já que estamos conversando, vc viu que tem uma conversa sobre censura e autorregulamentação rolando né? http://virou.gr/rjIVW5

  4. Kakah says:

    Sam, pensei muito em relação à isso e vale muito um post no MV!

    Como eu te falei, a internet é muito diferente da TV, na primeira eu posso dizer que: vale o filtro dos pais acima de qualquer outro. Não só porque existem anúncios patrocinados nas pesquisas do Google, no Facebook e no Twitter, mas porque são 80% dos consumidores atuais que decidem suas compras à partir da opinião de blogs e amigos dentro de redes sociais e, cá entre nós, esses merecem um filtro ainda maior. No caso da batalha Galaxy Tab x iPad, que falamos hoje mesmo, eu prefiro o iPad, mas porque eu já aprendi a mexer nele e está dentro do meu cotidiano, o que não quer dizer que ele seja melhor do que o Galaxy, sabe? Ainda se tem uma discussão muito grande sobre o status do que a qualidade da ferramenta em si – até porque, ninguém te fala que você precisa proteger o iPad com todo o amor e carinho do mundo porque ele amassa até se respirar muito perto dele… Entendeu o porquê do filtro dos pais? Na internet, até no “joguinho de meninos” você vê um monte de propaganda…

  5. Coluna Zero says:

    Olá Sam.
    Acompanho o grande trabalho do Instituto Alana em defesa dos nossos pequenos e também fiquei indignado com o relatório do Conar sobre a campanha do “amo muito tudo isso para menores” nos cinemas. Achei muito pertinente o questionamento que levantou nesta postagem, não só sobre o trabalho que o Conar faz – ou deveria fazer – mas também em relação ao comportamento dos “cidadãos”, que agora são chamados de “consumidores”.
    Acredito que se o Conar não existisse a diferença seria mínima, pois se o trabalho de autorregulamentação fosse efetivo não veríamos tantas campanhas que refletem comportamentos machistas, preconceituosos e tendenciosos, provocando e alimentando o vazio emocional das pessoas com informações distorcidas como por exemplo, a questão da “sustentabilidade”, usando uma linguagem que beira a demência. Como você deve saber, mês passado o Conar criou normas para apelos de sustentabilidade nas campanhas publicitárias, mas não acredito que essa ação mude algo neste setor, já que a distorção do real sentido deste termo não está só na cabeça dos consumidores, mas também na dos anunciantes.
    Para finalizar vou falar sobre o primeiro trecho da sua postagem sobre “Os preceitos básicos que definem a ética publicitária”. No ano passado conversei num café da manhã com um publicitário muito reconhecido em São Paulo e que já fez parte do conselho do Conar. Levantei todas essas questões e ele me resumiu com apenas uma frase: se existisse ética na propaganda, não existiria propaganda. Infelizmente tive que concordar.

  6. [...] é conseguir, que muitas vezes vem por meio do comprar. Por isso concordo com a Samantha quando, em seu texto da blogagem coletiva, ela coloca a importância de os pais – e outros adultos que convivem e [...]

  7. Até ia comentar, então li o comentário da Andréia… perfeito, é o que defendo.
    Aproveito para deixar meu post sobre o assunto: http://paremomundo.com/2011/07/13/reaberto-o-caso-mcdonalds-criancas-e-consumo/

    Abs!

  8. [...] Se os temas lhe interessam recomendo pensar no Conar e o risco da autorregulamentação e no meu review do livro-estudo de Raquel Moreno A Beleza Impossível – Mulher, Mídia e [...]

  9. RT @avidaquer: Jun Sakamoto afirmou comer no McDonald's com os filhos e diz que a "função dos pais é educar o filho" http://t.co/4YTm8LrZ

  10. RT @avidaquer: Jun Sakamoto afirmou comer no McDonald's com os filhos e diz que a "função dos pais é educar o filho" http://t.co/CtqevTS7

  11. smiletic says:

    RT @avidaquer: Jun Sakamoto afirmou comer no McDonald's com os filhos e diz que a "função dos pais é educar o filho" http://t.co/4YTm8LrZ

  12. Anonymous says:

    RT @avidaquer: Jun Sakamoto afirmou comer no McDonald's com os filhos e diz que a "função dos pais é educar o filho" http://t.co/4YTm8LrZ

  13. RT @avidaquer: Jun Sakamoto afirmou comer no McDonald's com os filhos e diz que a "função dos pais é educar o filho" http://t.co/4YTm8LrZ

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