Jun
07

I have a dream

Após uma tarde no hospital - todos fizemos infecções secundárias da gripe do final de semana passado - estávamos lanchando com os meninos e Gui começou a recitar um trechinho do famoso discurso I have a dream , aquele que Dr. Martin Luther King pronunciou em Washington D.C. em 28 de agosto de 1963, durante a Marcha para Liberdade e que marcou a história da humanidade, na luta por direitos civis e pregação da necessidade de união e coexistência harmoniosa - entre brancos e negros, mas eu prefiro pensar que entre diferentes grupos étnicos.

Foi interessante conversar com as crianças sobre o tema. Eles não tinham noção do quanto o mundo era separatista e tacanho há tão pouco tempo e fizeram perguntas intereressantes. Do discurso, acabamos na idéia pós racial, da luta pelos direitos humanos que se deve empreender hoje, visto que os problemas que temos são, na verdade, da humanidade e não mais de um ou outro grupo étnico, continental ou religioso. E chegamos à candidatura de Barack Obama , finalmente definida nesta semana pelo partido democrata, ratificada hoje com a apresentação oficial do apoio da rival Hillary Clinton . Saber que é um grande feito ter um candidato negro - tanto quanto uma mulher concorrer - deixou-os perplexos. E esta reação me deu esperanças no mundo no qual eles serão pessoas formadoras de opinião. ;)

P.S. Já escrevi sobre as eleições americanas aqui: Eleições americanas , McCain, Obama, Hillary ,A Mulher é o negro do mundo , Direitos para um mundo mestiço .

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Apr
02

Maitê e os preconceitos femininos

collage.jpgUm dos temas mais freqüentes na minha escrita é o mundo feminino. O que pouca gente sabe é que penso nele como uma força para exorcizar fantasmas que me perseguem e eles estão no preconceito que tenho com as mulheres. Peraí, não precisa unsubscribe my feed! Leia tudo primeiro. :D O jornalismo e o mundo feminino me irritam freqüentemente porque abusam da piedade e do sofrimento alheios para se manterem vivos e, para mim, isto (trocadilho infame) é a morte. É ser urubu, procurar sempre a carniça.

Hoje estava lendo uma entrevista que a Folha Online publicou com Maitê Proença sob o pretexto de comentar o lançamento do livro “Uma Vida Inventada” (Editora Agir/Ediouro, 2008, 224 páginas, preço médio R$ 30,00). Como é possível ler lá, a coisa resvalou no que eu mais abomino: a exploração do sofrimento alheio, das mazelas humanas, a desqualificação da mulher por seus atributos. Maitê, no meu imaginário eternamente aquela Dona Beija linda se banhando nua na cachoeira (se os marmanjos fantasiaram com ela, acredite que as meninas igualmente se imaginavam a própria que era linda antes desta moda de silicone e lipoescultura!), foi vítima daquele preconceito medonho que as pessoas bonitas sofrem: de não poder ser inteligente. (Nesta hora entendo porque Bruna Lombardi saiu do Brasil e Brad Pitt insiste em se “enfeiar” no cinema.)

Confesso que eu sempre simpatizei com a figura dela, os olhos e voz que riem com o telespectador, com sua reação espontânea e com a sinceridade que transparece. Por isso ela é uma das figuras que me seguram ao ver o Saia Justa e os mesmos motivos me fazem saber, de antemão, que vou gostar da mistura de ficção com autobiografia que está no livro que ela lança nesta semana. Sei porque estou sendo levada pelo meu preconceito - neste caso positivo - e minha simpatia com gente que parece gente.

Maitê parece. E deve ser. A história dela, com direito a tudo que as mulheres vivem (casar, descasar, ter filho, abortar, ser filha e mãe para seus pais, ter sucesso e fracasso, sofrer elogios e críticas, ver-se exposta sem ter autorizado nada) é real. Creio que uns poucos mortais vivem uma vida completamente livre de passagens no estilo Nelson Rodrigues. Suas histórias, como as de Luís Fernando Veríssimo, são ótimas porque são verdadeiras. Contam histórias humanas, risíveis ou não, mas que encontram eco dentro de cada um de nós.

Eu posso não ter passado por nada disto. Mas vivi de tudo um pouco, como ela. Uma amiga, que foi criada como minha irmã, abortou aos 16. Eu era bem mais nova que ela, mas fui a pessoa que esteve ao seu lado nesta hora, quando ela tentou suicídio por conta da depressão pós-aborto e “pé-na-bunda” do namorado, quando engravidou de novo e quando sua mãe morreu. Saber das histórias parecidas, mesmo que não com as minhas, mas com a minha vida (amigos são parte da nossa vida), no livro da Maitê me fez apreciar ainda mais ela. Tenho a mesma empatia por Irene Ravache, que hoje brindará o público da Livraria da Vila com sua “presença afetuosa”. Li uma entrevista com ela certa vez e sua história de vida, de mulher de teatro quando isso era muito feio e não dava status nenhum, de mãe de um dependente de drogas, de filha e amiga, me fez apreciar ainda mais sua figura. Conhecer o outro é bom, não porque nos faz ter piedade ou explica as fotos da Caras, mas nos traz a chance de enxergar vida sob outro foco, viver outra pessoa, aceitar outra realidade.

umavidainventada_215.jpgEnfim, como meus amigos virtuais Gustavo Gitti, no Não Dois Não Um, e Max Reinart, não no Pequeno Inventário de Impropriedades nem No Ghetto, mas no Nossa Via, no melhor estilo de cada um (veja, dois homens, mas com abordagem bem distinta!), eu recebi dois exemplares do livro. Quer dizer, vou receber hoje em mãos, no lançamento, porque a greve dos correios atrapalhou uma pouco as coisas. Um dos livros vou ler e o outro eu também vou sortear para um leitor do blog.

Para concorrer você só precisa fazer um comentário interessante aqui sobre este texto ou sobre os preconceitos que afetam o mundo feminino ou das celebridades. Fácil, né? Eu estou esperando ansiosa para ler seus comentários, suas histórias, simpatia ou antipatia pelo tema. Na segunda-feira eu divulgarei quem levou o exemplar autografado! ;)

Se você for de Sampa, passa lá na Livraria da Vila, a gente pode tomar um café e conversar! :)

Serviço:

  • Uma história inventada, de Maitê Proença
  • Livraria da Vila
  • data: quarta-feira, 2 de abril, às 19h
  • leitura com participação afetiva de Irene Ravache
  • rua Fradique Coutinho, 915 - Vila Madalena, São Paulo
  • fone: (11) 381405811
Mar
12

A Mulher é o negro do mundo

“A mulher é o negro do mundo.
A mulher é a escrava dos escravos.
Se ela tenta ser livre, tu dizes que ela não te ama.
Se ela pensa, tu dizes que ela quer ser homem”.
John Lennon

Apropriei-me das frases que vi no Luz de Luma, nos Resultados da Blogagem Coletiva - Pela valorização da mulher brasileira, agora há pouco. Adorei, como sempre gosto do que a Luma escreve e de suas citações.

As palavras lembraram-me os preconceitos contra Obama e também contra Hillary, pois neles estão vários preconceitos contra nós mesmos. Como disse Ruth de Aquino na sua coluna desta semana, Hillary “briga, nesta eleição, a briga da uma vida inteira” (comentando que quando ela usava terninho em público era acusada de abandonar a feminilidade e quando chorou acharam que era falso, sempre fotografada e filmada nos piores ângulos). Com Obama não é diferente, apesar de seu carisma e do charme de sua candidatura, os ataques são vis e tocam em pontos sensíveis e preconceituosos da sociedade atual. Como será nas nossas próximas eleições presidenciais?

 

Oct
23

Born into brothels

running-puja.jpg

Sempre queremos oferecer o melhor para nossos filhos. Hoje mesmo, no blog do Desabafo de Mãe, eu indiquei algumas obras de referência (dicionários e enciclopédias temáticas) para os que estão se alfabetizando como Giorgio ou são leitores compulsivos como Enzo.

No entanto, tudo isto me parece pequeno quando nos deparamos com a dura realidade que alguns menores enfrentam, aqui, na Ásia, não importa. Criança sempre toca o coração humano. Ciente disto, eu tinha um misto de curiosidade e de receio sobre o filme Nascidos em Bordéis.

Eu já sabia que o filme narrava a vida de crianças nascidas e pasmem criadas em bordéis de Calcutá e que ganhara o prêmio do público de melhor documentário no Festival de Filmes Sundance e também o Oscar de Melhor Documentário de Longa-Metragem em 2005, numa disputa com Super Size Me - A Dieta do Palhaço. Ainda assim, o tema me dava arrepios, achei que ia chorar como uma grávida em comercial de margarina (sim, eu chorava assim, por isso posso falar) e fui evitando. Mas passou no GNT e uma das maravilhas da TV a cabo é nos trazer o mundo que não iríamos buscar voluntariamente. Mas como vêm no pacote e a gente já está pagando, não custa olhar, não é? Estou sendo sarcástica com minha vidinha burguesa, mas é verdade.

Nascidos em Bordéis (Born Into Brothels) me surpreendeu. Primeiro, não chorei, mesmo tendo sentido muito pela triste sina das mães, pais (sim, acredita que as famílias moram no quartinho do bordel onde a mãe trabalha?) e as crianças. Gui comentou o que todo mundo deve ter pensado: o enriquecimento da Índia deixa de lados os menos favorecidos e numa proporção muito pior do que a da nossa desigualdade. Creio que seja a fé deles, a crença nas castas como forma de manifestação da lei cármica, e do outro lado nossa beneficência cristã que mudam o paradigma.

O que os documentaristas Zana Briski e Ross Kauffman mostram é que individualmente há esperanças. Tia Zana, que mora há anos no bairro da Luz Vermelha (onde estão os bórdeis), decide dar aulas de fotografia para as crianças. Dá-lhes câmeras simples e pede para elas fazerem retratos de tudo que lhes chamam a atenção, conseguindo resultados inusitados e emocionantes. Passeios ao zoológico e à praia são entremeados de cenas da luta da tia Zana para conseguir internatos que aceitem as crianças para dar-lhes uma oportunidade de vida. Um belo trabalho que nos dá vontade de sair da inércia e também mudar um pouquinho o mundo à nossa volta!

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