Browsing Category: "Clube do Livro"

A joia de Medina #review

Clube do Livro, livros October 26th, 2009

a joia de medina

Quando comecei a ler o livro A joia de Medina, de Sherry Jones, que fez parte do Book Crossing Bites Record de agosto,  achei instigante e esperava realmente apreciar o universo charmoso do Oriente Médio. Mas não foi assim. A teia de mentiras, hipocrisia e desamor, aliados ao excesso de trabalho de uns e o ócio de outros, situações completamente sem justificativas, foi me tirando do sério. E imaginem que quando eu tinha 16 anos li a bigrafia de Maomé (mas de antes de ele se tornar um profeta velho e cheio de esposas) e até o Livro Verde do Aiatolá Kohmeini eu li… risos.

Enfim, não consegui com esta obra uma coisa que considero fundamental para se apreciar de fato um livro: a identificação. Sem empatia como se emocionar? Read the rest of this entry »

Mundos de Eufrásia #review

Clube do Livro, livros October 9th, 2009

mundos de eufrasia claudia lage

Como já contei na entrevista com a autora, Claudia Lage, comecei minhas leituras do Book Crossing que promovemos na rede de blogs femininos que coordeno para Bites por Mundos de Eufrásia, de Claudia Lage, que conta a trajetoria de uma mulher incrível para seu tempo: Eufrásia Teixeira Leite, que na divulgação do livro é noticiada como enamorada de Joaquim Nabuco (aquele mesmo, famoso da História do Brasil por suas posições políticas liberais no Segundo Império e no início da República).

A Eufrásia que se descobre na leitura desta obra é uma mulher incrível, que recebeu uma educação especial (seu pai resolveu desafiar os conceitos da época, que criam que o cérebro da mulher era bem inferior ao do homem e não aprendia coisas avançadas), foi uma financista quando mulheres não geriam o próprio dinheiro e se tornou uma das investidoras mais respeitadas do mundo (foi a primeira mulher a entrar na Bolsa de Valores de Paris). Read the rest of this entry »

Entrevista com Claudia Lage sobre os Mundos de Eufrásia

Clube do Livro, livros August 31st, 2009

mundos de eufrasia claudia lage

Está rolando uma troca muito boa entre os blogueiros que estão no Book Crossing da Editora Record promovido pela Bites. O papo, que acontece no nosso grupo do google, promete se transformar em posts interessantes oferecendo uma visão plural e colaborativa sobre as obras, como já aconteceu com o livro Como falar com meninas, de Alec Greven, postado por @cybelemeyer no Falando sobre.

Eu comecei minhas leituras por Mundos de Eufrásia, de Claudia Lage, que conta a trajetoria de uma mulher incrível para seu tempo: Eufrásia Teixeira Leite, que na divulgação do livro é noticiada como enamorada de Joaquim Nabuco (aquele mesmo, famoso da História do Brasil por suas posições políticas liberais no Segundo Império e no início da República). A Eufrásia que se descobre na leitura desta obra é uma mulher incrível, que recebeu uma educação especial (seu pai resolveu desafiar os conceitos da época, que criam que o cérebro da mulher era bem inferior ao do homem e não aprendia coisas avançadas), foi uma financista quando mulheres não geriam o próprio dinheiro e se tornou uma das investidoras mais respeitadas do mundo (foi a primeira mulher a entrar na Bolsa de Valores de Paris).

Se você se interessou pela obra, vale ler a entrevista abaixo (feita pela @editora_record) com a autora do livro que, aliás, tem um blog bem simpático. Certamente com as palavras dela fica fácil entender meu entusiasmo com a obra e com a figura de Eufrásia.

Eu enviei uma única pergunta a mais para Claudia Lage, curiosa que sou pela atuação das pessoas na redes sociais. Perguntei como a experiência do blog e a chance de interagir com os leitores de forma tão direta na web 2.0 tem sido vivenciada por ela tanto como escritora quanto como pessoa. E ainda quis saber se no blog estas duas figuras conseguem se separar. A resposta foi:

A experiência de escrever no blog tem sido essencial, porque a proposta do meu blog é registrar o processo de criação, os arredores e bastidores da escrita literária. É uma forma de pensar literatura e compartilhar idéias e vivências literárias. Não existe muito uma divisão: pessoa e escritora, ambas estão presentes o tempo todo. Não dá para separar uma da outra, porque é a Claudia pessoa que vive a experiência da Claudia escritora. O blog é justamente a reelação dessa unidade. Por trás da autora, ou na frente mesmo, está a pessoa que escreve, sofre, se diverte, reflete, etc. No blog, desabafo, reflito, revelo minhas influências, textos que me inspiram, autores que me tocam, e escuto/leio o retorno dos leitores, sabendo que é um retorno franco, de leitor para blogueiro, sem intermediações, apenas e simplesmente o interesse pela leitura e escrita.

Agora a entrevista feita pela Record:

Eufrásia Teixeira Leite é uma personagem real. O que há na história dessa mulher que te levou a querer escrever o romance?

A proposta do romance partiu da minha editora, Luciana Villas-Boas, a partir do livro de ensaios de José Carlos Bruzzi, que resgata a figura de Eufrásia e o romance dela com Joaquim Nabuco. O que me interessou, em primeiro lugar, foram as relações, totalmente folhetinescas. Um pai que exige das filhas a promessa de não se casarem e nunca se separarem. A relação quase obsessiva das irmãs, muito rodrigueana. E, claro, a postura emancipada de Eufrásia, em pleno século XIX. Ela não abre mão de sua independência, assumindo todas as conseqüências, que não foram poucas, para o bem e para o mal. E também havia outro apelo, também irresistível, do tema abolicionista, da personalidade forte de Nabuco, como também da emancipação feminina que iniciava um burburinho na metade do século XIX, principalmente por meio dos jornais femininos como O Jornal das Senhoras, presente no meu romance.

Numa variação do que Katherine Anne Porter disse e fez, Clarice Lispector afirmou certa vez que não se interessava pelos
fatos em si, mas pela repercussão dos fatos no indivíduo. Na história de Eufrásia e Nabuco, uma sucessão de fatos exteriores gera decisões e reações interiores que alteram o curso de suas vidas de forma dramática. No entanto, as ações internas são condicionadas por valores e padrões de comportamento imperativos. Você sentiu o impulso de alterar o rumo dos acontecimentos, de modo a “reorganizar” essas vidas? Enfim, você lamentou pelos destinos que tiveram e gostaria de ter contado uma história diferente?

Como gosto muito do folhetim, foi exatamente o drama, a impossibilidade, que me atraiu. Uma impossibilidade interna, subjetiva, dos personagens, influenciada muito também pela mentalidade da época. Literariamente, é interessante que Eufrásia tenha cumprido a promessa sem querer. É interessante que Nabuco tenha negado a separação de bens. Que Eufrásia tenha afirmado a sua independência. Podemos lamentar pelo destino dos personagens, mas entendemos, de certa forma, suas escolhas e atitudes. Essa é a riqueza dessa história. Não há certo ou errado, bem ou mal, mas uma complexidade de circunstâncias e perspectivas, sombra e luz, que direcionam os personagens e determinam suas vidas. É belo e triste, é, enfim, humano. Não é uma história de final feliz ou infeliz, mas de afirmações e escolhas fundamentais.

Como foi o processo de investigação para chegar a essa história como um todo? Até que ponto foi teu compromisso com a realidade e a tua liberdade para ficcionalizar?

Mergulhei totalmente no século XIX. Li livros sobre o século XIX, passados no século XIX e escritos no século XIX. Às vezes me detinha em romances, fases que fui de Machado de Assis a Balzac, passando por Flaubert, George Sand e tantos outros. Às vezes em livros históricos e sociológicos sobre o Brasil no Século XIX, o Rio de Janeiro no século XIX, Vassouras no século XIX, toda a obra de Joaquim Nabuco, fora os livros sobre ele, e tudo que encontrei ligado ao regime escravocrata e o movimento abolicionista; além disso, livros sobre a França no século XIX, a emancipação feminina na França e também no Brasil. A pesquisa foi imensa, mas maior ainda foi o processo de colher o material necessário, torná-lo um elemento criativo dentro da narrativa e do universo ficcional do livro. Considerando que “a realidade” é representada pela pesquisa história, porque não há outro modo de viajar até o século XIX, eu tinha fatos à minha frente e desenhos de personalidades históricas. Quer dizer, tinha o “o quê”, mas não o “como”, e é justamente no “como” que a ficção entra nesse livro e encontrou o seu espaço para acontecer. A primeira frase do romance “Eufrásia e a sua irmã Francisca estavam de mãos dadas desde a noite anterior, quando foram chamadas às pressas para despedirem-se do pai” ilustra bem isso. Eu tinha o fato: a morte do pai de Eufrásia e Francisca, apenas isso. A ficção entra nas circunstâncias dessa morte, na reação das irmãs, de mãos dadas desde a noite anterior, sobressaltadas com o pai doente. E em tudo o mais que envolve a narrativa, inclusive a linguagem. Nesse sentido, a liberdade foi total. É possível dizer que não há nenhuma linha nesse romance que não seja ficção, e, ao mesmo tempo, dizer que não há nada que fira as pesquisas históricas.

Você mencionou autores como Flaubert, Sand, Machado de Assis, que ajudaram na construção da base dessa história e contribuíram para um maior entendimento sobre o século XIX. Que autores fazem parte da construção da tua base como escritora? E por quê?

Clarice foi a primeira revelação estética para mim. Ela disse, uma vez: “quero escrever movimento puro”. Essa frase me espantou, como assim? Mudei completamente meu olhar sobre o texto, buscando esse movimento. É mais do que um autor ter uma técnica, um estilo, é possuir uma visão artística, uma proposta que ultrapassa a questão de escrever livros, mas toca no cerne da própria criação, a escrita. Continuo lendo e aprendendo muito com Clarice Lispector, Hilda Hilst, Machado de Assis, Cortazar, Calvino, Fernando Pessoa, Caio Fernando Abreu, João Gilberto Noll, Sérgio Sant’anna, Nelson Rodrigues, Antonio Torres, entre tantos outros. São autores que possuem um caminho criativo único, bem determinado. Leio sempre procurando vislumbrar esse caminho.

Book Crossing ou Clube do Livro?

Clube do Livro, livros August 12th, 2009

Neste mês de agosto assumi um novo compromisso que me deixou especialmente contente. Fui convidada pela Bites para ser a curadora de um Book Crossing com livros da Editora Record. Além de sugerir “encontros” e afinidades entre títulos (e a editora tem muitos!) e editores de blog, pude colaborar ativamente na definição da estratégia que envolverá a leitura, a troca de livros e a publicação de resenhas nos blogs envolvidos.

E como vai funcionar? Formamos grupos com afinidades e sugerimos obras para uma leitura coletiva (um Clube do Livro) e assim que os blogueiros recebem as obras em suas casas, passamos a debater o tema em nosso grupo online. Para quem AMA ler como eu, tem sido um prazer imenso poder ler obras boas e ter amigos com quem conversar sobre esta leitura, pessoas interessantes que estão lendo as mesmas obras que eu e que têm opiniões complementares à minha. Esta leitura coletiva tem um tempo para acabar e em seguida os blogueiros postarão suas reflexões sobre a leitura em seus blogs e redes sociais de leitores.

Mas e o Book Crossing? Bem, cabe ao blogueiro definir o destino da obra. Pensamos em fazer uma libertação de livros ou uma troca efetiva (em que um lê e passa para o outro), mas preferimos dar ao blogueiro o direito de escolher o destino da obra que leu. Quem quiser pode doar para uma biblioteca pública, emprestar para amigos, libertar deixando-o num local público ou mesmo guardá-lo. O que conta é que estaremos lendo, incentivando pessoas a conhecer novas obras, trocando ideias sobre literatura e fazendo uma pequena parte do trabalho de democratização da cultura.

A atividade não é remunerada e, embora esteja se iniciando com o grupo de blogs que temos na rede MdeMulher, os participantes não precisam compor a rede. Se você é leitor de um de nossos blogs, também ama livros e costuma fazer resenhas de suas leituras em seu blog, faça contato conosco nos comentários deste post. Quem sabe você se junta a nós nesta troca de ideias?

Já estão participando desta primeira fase os blogs: Falando sobre, Porque minhas opiniões não cabiam na telinha da TV, Elfinha, Ladyrasta, Blog da Ti, Groselha News, Universo Mix, Rockerspace, Bolsa de Novidades, No Ghetto, A Vida Como A Vida Quer, Liliane Ferrari. E as obras que estão na roda são (as que estão na foto acima): A joia de Medina, Alex e eu, Como falar com meninas, Lições de vida de um cão chamado Lava, Mundos de Eufrásia, O Mundo é curvo, O poder da intuição e Para Sempre Teu, Biografia de Caio Fernando Abreu.

P.S. A querida Dafne Dias gentilmente criou um selo para identificar os blogs que apóiam a ação. É este aí:

bookcrossing1 (1)
E se você quiser colocar no seu blog também, pode copiar o código de HTML abaixo

Posts do pessoal sobre o Book Crossing:

Falando sobrePorque minhas opiniões não cabiam na telinha da TV, RockerspaceNo GhettoLiliane Ferrari.

Um toque na estrela

Clube do Livro, livros June 27th, 2009

Adoro romances. Leio estudos, biografias, livros de receitas, revistas e jornais, mas efetivamente o que me apraz é ler romances, entrar na história de outrem. E vive-la como se fosse a minha.

Estou experimentando isso na leitura de Um toque na estrela, de Benoîte Groult (Editora Record). Ao ganhar o livro, na verdade uma provocação de um colega jornalista, senti simpatia pelo belo azul da capa e empatia imediata pela senhora da contracapa.

benoite groult um toque na estrela livro romance terceira idade idosos

Só depois li que o livro tinha vendido 450 mil exemplares na França, onde a tal senhora é uma figura conhecida, uma das mais importantes feministas de sua geração – nascida em 1920, foi uma das primeiras vozes a defender os direitos das mulheres em seu país.

A linguagem, ácida, não deixa de mostrar ternura ao nos apresesentar a realidade na qual se insere a personagem prinicipal, Alice, uma jornalista que se recusa a se aposentar da revista onde trabalha há décadas e onde é considerada aux concours por todos. As vicissitudes de sua vida ao lado do esposo Adrien e as histórias dos filhos Marion e Xavier, mesclam-se aos relatos sobre a percepção do envelhecimento.

Identifiquei-me de cara, não por ela ser mãe, mas porque eu já decidi, desde criança, que vou ficar para semente. Sempre digo que vou passar dos cem anos e esta é uma condição que me imponho na vida. Mas, ao ver como a personagem Alice, que poderia me dizer “eu sou você amanhã” em tantas coisas, me deparo com a realidade que já sou uma senhora estranha e anacrônica para muitos dos meus pares atuais.

“Sabe que, embora eu seja muito jovem, antigamente eu era mais jovem ainda? O que isso significa? Certamente existe aí alguma coisa terrível.”
Afirma Moira, o destino, citando Henri Michaux no capítulo 1.

Notar que a escritora é da “geração que não queria mais envelhecer, depois de tantos séculos em que os papéis nunca mudavam”. Você já pensou sobre isso? Que os nascidos no século XX viram o mundo mudar de tal forma que conheceram a descoberta da adolescência, a valorização da infância e agonizam conscientes de que a velhice é uma realidade inevitável e longa?

Até ler os relatos da autora, transcritos através das memórias de Alice, eu jamais tinha me dado conta de que a mudança fora tão forte e que pegara uma certa geração assim, de sopetão, sem tempo para respirar em nenhuma das etapas do caminho.

Apesar de ler que “dizer o que é a velhice é como tentar descrever a neve para quem vive nos trópicos“, Groult conseguiu me fazer experimentar parte dos dissabores e dos sabores da terceira idade. E eu gostei, sabem? Ri alto e gostoso ao ler sua luta com o computador e lembrei da Rolley Flex e do toca-discos (de até 78 rotações) da minha avó ao ler sobre sua Remington preta e dourada que virou enfeite do hall.

Lembrei de tantos objetos que minha amiga Thereza, uma vizinha de quase 80 anos que foi um oásis intelectual para mim na minha chegada a São Paulo, guardava e dos quais teve que se desfazer ao mudar de apartamento, rendendo-se à dificuldade de viver sozinha sem poder contar com a boa articulação na bacia. Uma mulher que sempre trabalhou, dirigiu seu carro, comandou sua família e sua vida e repentinamente – nem tanto, mas para ela se viu vencida pelo próprio corpo.

Fica a pergunta que me pareceu a síntese da reflexão:

“Como será quando esses velhos sobreviverem até os 120 anos, coisa que não vai tardar a acontecer?”

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