E os livros queimados…
Postado em livros, mulher no dia 04/07/2009Não, nem estou revivendo Fahrenheit 451, o filme de François Truffaut baseado na obra de Ray Bradbury.
A idéia dos livros sendo queimados veio da mesa debatedora aonde Edna O’Brien lembrou que seus livros foram queimados na Irlanda. Sim, este tipo de coisa ainda acontece e não só nos confins do Oriente Médio! A escritora irlandesa esteve na mesa 8 na Flip ontem e parte de seu discurso foi sobre o escândalo que causou o livro ‘Country girls’ nos anos 60, por causa da temática sexual da obra. Ela contou que o livro chegou a ser queimado antes de ser proibido na Irlanda.
A Irlanda foi um dos países através dos quais eu conheci um mundo diferente pelas fotos enviadas por telefone e divulgadas no Jornal Nacional (quem se lembra que a gente via imagens assim em imagens paradas na TV). Os conflitos de lá, como os da guerra Irã-Iraque, me mostravam um mundo muito diferente do que eu, menina de cidade pequena de interior, conhecia. Depois (#shameonme, I know) conheci a Irlanda de Brida de Paulo Coelho, de Christy Brown em Meu pé esquerdo, das letras de 9músicas do U2, de James Joyce – aliás, única das recomendações de Tezza na faculdade que eu não consegui gostar nem um pouquinho. Detalhe: Edna O’Brien é uma das mais respeitadas biógrafas de Joyce.)

Reprodução do telão da FLIP
E aí vem esta visão irlandesa que eu quero ler agora. O universo feminino e a realidade de ser escritora e mulher são, de certa forma, mesmo que numa realidade tão alternativa à minha, um espaço no qual eu me sinto em casa. É, digamos, a minha praia. E a escritora me foi apresentada de uma forma especial, numa mesa em que tratava dos Sentidos da Transgressão, entrevistada por ninguém menos que a presidente e fundadora da FLIP, Liz Clader – e não é o máximo a festa literária ter uma mulher neste papel?
Nesta apresentação feita por Ana Carolina Arantes
Para Edna, que foi casada apenas uma vez e teve filhos, a vida conjugal tradicional e a vida de escritora são, de certa forma, inconciliáveis. Entretanto, são os filhos, diz, a razão por que mantém sob controle a loucura e a insensatez que a fazem escritora. Perguntada sobre o papel da paixão em seus romances, brincou: “Paixão? É dela que fui acusada”, em referência à censura dos livros. Séria, em seguida, concluiu: “É a paixão na vida que alimenta a paixão nas páginas”, conquistando, como esperado, longa sessão de palmas do público.
Fica evidente que vou achar algo para apreciar – quiçá me encontrar – na obra desta escritora!
(E vale ler esta entrevista da escritora onde ela disse: Escrever é como sonhar!)
A escritora mais simpática e meiga da FLIP
Postado em livros, mulher no dia 04/07/2009
Momento fã na FLIP 2009: além de tirar foto para registrar o momento, pude trocar algumas palavras e cartões com uma das principais escritoras do evento. Honra imensa.
Nas coletivas de imprensa de quinta-feira vivi uma situação inusitadissima e inédita na minha vida como jornalista. Vou tentar descrever a cena: um grupo de profissionais de mídia está reunido em determinada sala de conferência para entrevistar coletivamente uma figura – e nisso já supomos que seja uma pessoa importante em sua área, não? Geralmente quando isso acontece a pessoa mal chega e os assessores ficam em cima, como guarda-costas, criando uma redoma protetora.
Neste dia fui para as coletivas pela manhã para acompanhar @ladyrasta, que queria ver Dawkins e Gay Talese. Meu foco eram os escritores chineses, que – não sei bem por que – seriam os únicos entrevistados em dupla. Já a caminho da coletiva encontrei-os numa livraria e não resisti, fiz daquelas “fotos de paparazzi” que já me deixaram feliz e orgulhosa.

Então, voltando à coletiva: a jornalista Xinran chegou à sala e, ao ver que ainda tinhamos tempo – vergonhosamente os colegas não tinham ainda voltado do almoço, mesmo já sendo 15h -, começou a entregar um marcador de livros e um cartão pessoal para cada um dos presentes. Não bastasse isso, ela o fazia de modo fino, humilde e delicado, apresentando-se e explicando que o marcador era de um dos seus livros – como se os presentes não soubessem quem ela era. Agradeci, pedi para tirar uma foto com ela e engatamos numa conversa animada sobre seus sapatos lindos e praticamente artesanais.

Depois, durante sua fala na coletiva, entendi que ao agir com espontaneidade acabei provando para ela que sua técnica de abordagem com as mulheres chinesas do interior funciona também com mulheres ocidentais de cidades grandes. Xinran contou que nas viagens para pesquisa sobre a realidade das mulheres chinesas, que resultou no livro As boas mulheres da China, ela só começou a trocar idéias com as mulheres locais quando um dia, por equívoco, saiu com o rosto levemente borrado de maquiagem. Uma mulher a chamou e avisou. Assim começou um método que ela usa até hoje: sempre deixar uma pequena falha na maquiagem (ou na manicure, como ela fez para vir ao Brasil, pintando uma só unha com cor diferente) como “deixa” para que as pessoas puxem assunto com ela.
Como Gay Talese, Xinran mostrou que antes da pesquisa em campo e do texto impecável – tanto ela quanto Talese, ambos jornalistas, são excelentes neste dois quesitos – é preciso estar aberto para o contato com o outro. E a escritora chinesa estava sinceramente comprometida com a idéia de trocar, aprender e conviver tanto quanto fosse possível conosco neste curto período no Brasil.
P.S. Se você quer saber mais detalhes da coletiva vale ler o post que @ladyrasta prometeu fazer, no qual ela vai disponibilizar o video que gravou. E sobre a mesa Pequim em coma, tema que ainda quero esmiuçar aqui, há um texto bom aqui.
Quando se ama, a rosa tem metade do perfume…
Postado em livros no dia 04/07/2009O ditado japonês do título diz o que se passa no meu coração nesta FLIP. Vejo as ruas antigas de Paraty, caminho na av Beira Rio e vejo a cervejaria artesanal, enfim, tudo me parece ser a cara do Gui.

Depois chego na praça central e ao me deparar com Pinóquio e Gepetto em tamanho natural, dentro da baleia, quero estar lá com os meninos. O velho, o menino e o burro me fazem lembrar de quando lemos esta história há poucos dias…

Estou vivendo uma situação insólita. Adoro tudo que vejo na Festa Literária, mas não consigo aproveitar. Queria ser o japonês do Heroes e parar o tempo, congelar tudo para dar tempo de recebê-los aqui. Mas, por motivos de força maior (leia-se Linda, a cadelinha ainda bebê demais para ficar no hotelzinho de cães), não será possível realizar meu plano. E assim eu estou aqui, contente mas ao mesmo tempo triste. Será que alguém me entende?

Dentro do boneco grande, uma criança brincalhona me olha tirando a foto... imaginam a saudade?
O eu profundo e outros eus
Postado em livros no dia 04/07/2009
Uma das grandes motivações para minha vinda à Flip foi a mesa debatedora de hoje. Não por Mario Bellatin – autor que eu não conheço e, se me permitem a franqueza, depois da coletiva de ontem e do debate de hoje não pretendo conhecer. Mas por Cristóvão Tezza, que se tornou famoso por um best-seller (O filho eterno, Ed. Record, no qual conta em terceira pessoa as dificuldades que viveu para aceitar o filho que tem sindrome de Down) e que, como já falei, foi meu professor e me influenciou grandemente como escritora.
Escritora? Pois é, quanto mais respiro o ar desta cidade onde até as pedras do calçamento histórico parecem nos dar letras para ler, mais eu me aceito – enfim – como alguém que vive de escrever. Mas eu jamais pertenceria a uma escola de escritores que, como a de Bellatin, é contra o uso de referências autobiográficas nas obras de ficção. Por outro lado não descreveria minha vida em terceira pessoa, como fez Tezza em O Filho Eterno.
Daí toda minha curiosidade com este debate de hoje. E me deparei com dois escritores muito diferentes entre si, o que torna o debate ainda melhor – e vale ler a descrição que Luciano Trigo, do Máquina de Escrever, sobre eles.
Cada dia mais vejo o blog como um jornalismo gonzo, aquele no qual acabamos sendo figuras das histórias, nos quais as aventuras que vivemos para chegar no texto final permeiam a obra – como os relatos de Luis Nachbin no final do Passagem para… da TV Futura. E sobre este tema, Tezza falou
“é um grande perigo transformar a vida pessoal em literatura, porque você pode se tornar um personagem de si mesmo. Os grandes desfiles nazistas faziam isso, ao transformarem a massa num fator de composição estética, esmagando a individualidade.”

Ainda bem que eu não tenho a pretensão de fazer literatura, né?
Mas eu tenho a pretensão, sempre, de participar de uma conversa com o leitor e foi com imensa surpresa que ouvi Tezza contar que esta é uma experiência totalmente nova na vida dele. Lembro de ter noticiado aqui, com entusiasmo, do lançamento de sua coluna na Gazeta do Povo chamada Blog de Papel e creio que ele se referia a ele quando comentou que ao começar a escrever para um jornal de Curitba (há menos de dois anos) ele viveu a experiência de ter o retorno, a reação, o feedback do leitor. Pessoas que mandam cartas, mensagens, que comentam o que ele escrevia. Eu não consigo imaginar que ele pode viver sem este retorno. (E passarei dias pensado sobre o que esta não-relação fez com ele como escritor)
O blog nos dá isso com uma dimensão tão forte, não? Ele nos dá outra coisa, pensei durante a conversa de Tezza com Bellatin, moderada por Joca Reiners Terron. Universaliza, globaliza, democratiza. Em resposta à última pergunta da rodada, que tratava de uma suposta literatura nacional, ambos os autores concordaram que ela não existe. E Tezza revisou a história em poucas palavras, nos fazendo concordar que a literatura foi a primeira coisa globalizada. E foi o grande meio universalizante e globalizante em termos de cultura – e quando usada com este objetivo, é democratizante também.
Daí vou voltar aos blogs: eles trazem em si o mesmo potencial, mas, como em tudo, depende de quem o utiliza fazê-lo vingar e florescer. A semente, creio, é a mesma, basta terra fértil, sol e bom senso.

Mario Bellatin na coletiva de imprensa da Flip 2009.