O que rola na Flipinha
Postado em livros, Mãe com filhos no dia 02/07/2009
Coral de abertura da flipinha
Que Paraty recebe anualmente o mais importante evento literário da América do Sul, a Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP para os íntimos) todo mundo sabe. Nem todo mundo acompanha o programa educativo da FLIP, que se tornou uma ação contínua e recebeu o nome de Flipinha. A idéia é bárbara:
Mais do que um programa educativo, a Flipinha é um movimento de transformação para atuar na formação de leitores críticos e reflexivos, aptos a pensar e intervir no futuro de sua cidade.
E o fato do programa acontecer de janeiro a dezembro com ações que envolvem alunos e professores (da rede escolar pública e privada de Paraty) reunidos e convidados para inúmeras atividades de incentivo à leitura e de valorização do patrimônio cultural local me faz invejar os moradores de lá. Queria que aqui na minha cidade (mega cidade, eu sei) as escolas públicas e particulares pudessem ter acesso aos mesmos projetos, diga-se de passagem, a excelentes projetos como este.

A imprensa mostra a Tenda da Flipinha e nem todo mudno sabe que ela é o ponto de encontro das atividades realizadas ao longo do ano todo:
- Ciclo de Literatura: Seminários sobre o autor homenageado do ano para os professores da rede pública e privada de ensino de Paraty
- Oficina de Ilustrações: Oficina para a comunidade caiçara sob a coordenação do ilustrador Roger Mello. Os desenhos produzidos são utilizados no material gráfico da Flipinha.
- Mediadores de Leitura: Jovens que passam por uma capacitação em literatura, teatro e música proporcionam as crianças uma prática de leitura eficiente e prazerosa.
- Ciranda dos Autores: Encontros dos alunos com escritores e ilustradores. Desde 2004 foram recebidos mais de 60 autores.
- Flipinha no Mar: Atividades ligadas à literatura e ao patrimônio cultural no local, com o intúito de dar acesso à cultura e à literatura às comunidades mais distantes de Paraty.

E a Flipinha deste ano vai ter alguns eventos bem legais:
- Pés-de-livros: Das árvores da Praça da Matriz pendem barbantes com livros, aonde cerca de 70 mediadores de leitura convidam o público à leitura
- Ciranda dos Autores: 2009 serão 22 autores, 13 mesas temáticas voltadas ao público infantil
- Ciranda dos Bonecos: Oficinas com crianças e jovens para a produção de bonecos de papel machê de personagens da literatura. Os bonecos são instalados na Praça da Matriz durante a FLIP
- Arte na Praça: Mais de 30 oficinas simultâneas dos saberes e fazeres de Paraty que celebram o patrimônio imaterial local.
Deus é um delírio ou será o ateísmo de Dawkins apenas outro meme? #flip2009
Postado em livros no dia 02/07/2009[update] Entrevista com Dawkins na TV para quem quiser saber mais:

Confesso que eu quase não vim à primeira coletiva da FLIP2009 na qual Richard Dawkins, autor de O Gene Egoísta (livro que deu origem à ideia do meme, conceito que usamos tanto nas mídias sociais) e de Deus, um delírio. Mas, enfim, ouvir e conhecer o ponto de vista e os argumentos daqueles de quem discordamos é uma das premissas que um pensador tem que ter – e um dos sustentáculos (ou não!) de suas crenças. Se você teme que as ideias contrárias às suas coloquem sua fé em xeque, ela pode não ser tão real quanto você pensa.

Assim, participei – embora como ouvinte, sem utilizar os 40 minutos dedicados às perguntas de imprensa para questionar o autor estadunidense – da coletiva e ouvi-o começar sua participação se explicando: “Não digo que as pessoas que tem uma religião são fracas, afirmo que nós não precisamos delas. Coisas terríveis são feitas em nome de Deus e por isso ele digo que não estou feliz ou seguro com os acontecimentos que acontecem na minha época”.
[Neste ponto devo dizer que não acredito que há um ser humano feliz com o que tem acontecido na humanidade nas guerras motivadas pretensamente por diferenças religiosas - e todos nós sabemos que as motivações são outras, de cunho muito mais material, né? ]
Questionado sobre a mudança de nomenclatura de ateismo para bright – eufemismo para ateísmo em inglês, o escritor descreveu as dificuldades enfrentantas pelos ateístas nos EUA afirmando que ao se assumir em sua não-crença é inevitável sofrer prejuizos profissionais. Dawkins foi um dos apoiadores financeiros de uma campanha na Europa que tinha como mote algo como: “provalmente não há um deus, portanto continue vivendo”. Iniciada por uma pessoa que se sentiu incomodada com frases veiculadas em ônibus na capital inglesa que diziam “if you don’t believe in Jesus you’ll go to hell” (se você não acredita em Jesus você irá pro inferno), a campanha teve grande e surpreendente adesão – sob a forma de suporte financeiro para pagar uma campanha publicitária que foi veiculada em ônibus londrinos. Segundo o escritor, a adesão foi tão surpreendente que ele crê que demonstra novidades no posicionamento e pensamento atual.
Dawkins afirma que “se sua única razão para acreditar em Deus é a necessidade de ter uma explicação para a criação da vida, então ao conhecer a visão científica da criação da vida, ele, um darwinista famoso, crê que você vive uma God delusion, fazendo referência à sua obra Deus, um delírio. E sabem que neste ponto comecei a passar do respeito para a concordância? Continuo firme em minha fé em Deus, mas isos porque de fato eu não preciso de uma explicação para acreditar em Deus tampouco tenho um Deus pessoal, creio n’Ele como uma força superior, mas creio – e acima de tudo. Mas eu não sou uma pessoa que tem um Deus ligado a alguma religião – cristão, judeu, muçulmano -, e me identifico mais com a idéia de que fé e ciência podem conviver harmonicamente. [E espero receber de ateus como Dawkins o mesmo respeito pela minha fé.]
E neste ponto Dawkins lembrou uma frase de Einstein – God does not play dices – comentando que o cientista não acreditava num Deus pessoal, mas sim numa força maior que criou tudo. E em seguida me fez concordar novamente: “vivendo numa sociedade cristã como o Brasil, é importante que as crianças conheçam a Bíblia para entender sua história e sua cultura”.
Então, embora não ache Deus um delírio, eu pensei seriamente em ler os argumentos dele. Como falei no começo, não acho primordial conhecer tudo, mas acho bom (e importante) estar aberto e não insistir o proselitismo. Como já me disse minha mãe – ela sim uma cristã fervorosa, como conta em seu blog – a salvação é individual – e funciona como uma escolha.
Fico feliz com a chance que a nossa era, sua tecnologia e a liberdade que vivemos em países como o meu permitem que vivamos. Graças a coisas assim eu e você podemos escolher em que queremos acreditar!
P.S. Curioso: Paulo Cabral, reporter brasileiro da BBC comentou, sob a forma de pergunta, que no Brasil as explicações metafisicas são mais procuradas do que a fé estruturada das religiões, ao que Dawkins respondeu: Nem sempre a fé é substituida pela razão!
[update] @ladyrasta, minha roomate na FLIP, fez post sobre a mesma entrevista coletiva, com um enfoque muito diferente. Em determinado momento do texto ela dizia
“Ué, perguntei na hora para os meus botões: mas em uma grande síntese, não é esse o objetivo da maioria das religiões? Tentar aceitar que existe o insondável, fazer com que aceitemos aquilo que não compreendemos? Eu pelo menos não consigo imaginar outra forma de se definir religião; para mim religião é amparo para o que não suportamos ou não compreedemos (tá, podem chamar de muleta se quiserem, eu não me importo).”
O que vocês acham? Vale ler lá e opinar!