Archive for October 2nd, 2007

65 anos – Gray War

mulher October 2nd, 2007

65.jpgLogo cedo no telejornal matinal soube do Dia do Idoso. As reportagens tradicionais citaram um detalhe que pela primeira vez soou estranho aos meus ouvidos: 65 anos. Domingo meu sogro completou esta idade e Gui falou para o pai no fone: agora você pode fazer a carteira de terceira idade, tem que usar os benefícios que tem direito.

Meu pai também é de 1942, assim como meus sogros, com quem convivo desde antes dos 50 anos e confesso que não notei uma diferença tão substancial nos três nesta década e meia. Junto com o aumento dos idosos e da expectativa de vida em nosso país, teremos que mudar nosso conceito de quem é idoso. Especialmente das mulheres, uma geração que trava a “Gray War” (do duelo ideológico travado por Anne Kreamer e Nora Ephrom), não me parece nem um pouco disposta a se ver como “velhinhas” e não tem motivos para isto. (A propósito do tema, concordo com Cynthia de Almeida e não me envergonho de dizer que já pinto o cabelo. Já pensou eu ficar grisalha aos 34?)

Descobri que o Dia Nacional do Idoso, 27 de setembro, foi estabelecido em 1999 pela Comissão de Educação do Senado Federal e serve para refletir a respeito da situação do idoso no País, seus direitos e dificuldades. Considero importante que a sociedade se volte para este tema inevitável, pois seremos idosos ativos em pouco tempo e gerações como a dos meus filhos serão centenárias, graças às novas tecnologias e novidades como células-tronco.

Sou de familia japonesa e os orientais tradicionalmente cuidam de seus ancestrais e para mim é triste e estranho ver como os ocidentais simplesmente não consideram conviver intimamente com seus idosos, mesmo eles sendo sua família. São tantas pessoas solitárias e tantos pais e mães desesperados com creches e escolas integrais, quando, me parece, a solução era uma boa e grande família.

O Umbral dos tempos maiores

A Vida Como A Vida Quer October 2nd, 2007

2533-estada-guilherme-setembro-07-013.JPEEu já tinha escrito meu texto quando recebi umas fotos do meu sogro com este texto dele. Sim, tenho um sogro filósofo e autor de mão cheia, um daqueles talentos de quem um dia gostaria de ser a editora. (risos… e sogro dá uma canja desta para nora?!)

Enfim, nem pedi autorização mas estou publicando aqui o texto dele, que casa bem com meu texto de ontem. Gui autorizou.

65, O UMBRAL DOS TEMPOS MAIORES
Sessenta e cinco anos tenho,
denunciam minhas cãs e meus compridos cenhos.
Olho para o tempo como um panorama
acima da montanha. Vejo tudo.
Como são tantos os seres.
Todos me pertencem e nenhum ao mesmo tempo.
Daqui, dos umbrais da terceira idade,
como chamam agora a velhice,
vejo as duas primeiras, se não forem mais.
Tenho filhos. Quatro. Tive medos mas fui ousado.
E eles acharam outros quatro ao seu lado.
Assim, a vida me deu oito entre rebentos e enxertos.
Netos tenho ainda mais, cinco,
pela ousadia de meus filhos, ousados também.
Vejo meus antepassados em meus sinais atávicos,
os bons e os nem tanto. Quantos!
Nossa! Enxergo meus amigos, também tantos,
ao meu lado sempre, mesmo afastados,
distantes, esquecidos e lembrados.
Vejo a infância, livre e rica, de aprender felicidade.
Vejo a adolescência, quanta riqueza de aprendiz,
quanta ferramenta de sonhos,
quanta dor gostosa por se machucar para aprender.
Vejo a adultez, em seus momentos doces, eufóricos,
bem sucedidos e benditos, frustrantes e malditos.
Vejo homens, mulheres, vejo bens construídos
que foram consumidos, protegidos, trocados e perdidos.
Vejo quem chegou e me trocou por tudo
na esperança de ter vida e bens multiplicados,
que me ajudou a ver dobrados, descortinados
como asas de borboleta, os desejos, as magias,
as surpresas, as omissões, frustrações e ousadias.
Sessenta e cinco anos tenho. Denunciam minhas cãs
e meus compridos cenhos.
E ao me olhar, não me vejo, não consigo,
vejo tudo o que me veio dos outros.
É meu olhar reflexivo, de todos tenho um pouco.
Com todos tive sonhos, mas os sonhos que realizei
foram meus, não, dos outros. E gostei,
assim me fiz, me encontrei.
Tantos colos tive, tantos seios,
acalantos e suspiros, dramas, desesperos,
em todos entrei e de todos consegui sair
preocupado e preocupando, encantado e encantando,
em cenas nas quais fui ator e de atores fiz os outros,
estes, sim, foram os reais artistas da vida
em que fui protagonista. Fui capaz de receber
e de oferecer aos outros. Tem um pouco de mim
por aí, aonde andei e vivi. Tudo vejo do alto
desses meus sessenta e cinco anos,
que denunciam minhas cãs e meus compridos cenhos.
De todos os lugares tenho um pouco.
De todas as pessoas tenho um pouco.
E de todos aprendi a esquecer o que foi amargo e duro,
que é fugaz e pouco se aproveita tudo o que nos leva
a procurar a glória deixando os outros para trás.
De todos aprendi a ser mais doce e terno
porque assim a vida é mais fácil e mais feliz.
Ah! Aprendi também a amar a natureza,
mãe da vida, em suas excitantes maravilhas,
com quem compomos antes, durante e depois
dessa caminhada única, dure o que durar.
Então, agora, que sou maior no tempo, mais velho,
devolvo essa vida cheia, onde tudo e todos
tiveram seu lugar, foram parceiros, que ficaram,
ou se retiraram, ou se foram sem voltar mais.
E quando eu vier a termo, porque isso é certo,
deixarei um pouco do que recolhi e semeei,
como faço agora, jardineiro e hortelão de outras vidas.
Assim e só assim valeu a pena ter vivido e aprendido
nesses meus sessenta e cinco anos,
que denunciam minhas cãs e meus compridos cenhos.

 

Manuel
Vésperas do aniversário, 30 de setembro de 2007,
Ao completar 65 anos de idade.
Curitiba – PR

blank
Submarino.com.br
SEO Powered by Platinum SEO from Techblissonline Web Analytics