Crianças no semáforo
Postado em Cotidiano e sociedade no dia 25/07/2007Você ainda se compadece das crianças que param ao lado do seu carro nos sinaleiros para pedir esmolas ou tentar vender seu trabalho de mascate ou de limpa vidros?
A mim ainda emociona. Como o professor de inglês Jihad Abou Ghouche, de Foz do Iguaçu, PR, que criou um programa para alimentar alunos da escola de sua esposa, porque “tinha vergonha de comer sabendo que eles passavam fome”, eu tenho muitas vezes vergonha de continuar indo a meus passeios com meus filhos e deixar aquelas crianças ali, ao relento, correndo todos os riscos que não se deve correr.
Hoje recebi um release da Maxpress que falava de uma campanha publicitária lançada pela Fundação Projeto Travessia e que alerta sobre o trabalho infantil nos semáforos.
Os anúncios exibem o rosto de pequenos malabaristas de farol que deveriam estar lendo, estudando ou simplesmente brincando. E levantam o debate sobre a questão, enfatizando que “O trabalho infantil só ocorre por falta de políticas públicas eficientes de inclusão social”.
Dei uma olhada no site da entidade e de todos os projetos, que incluem cartões de Natal (não sou muito adepta destes projetos que a gente só compra algo e não faz nada pessoal), interessei-me por um dos mais antigos, atuante desde 1996, o Programa de Educação na Rua no Centro. A empresa em que trabalho fica na Liberdade, bem no centro de São Paulo, e é triste notar o estado das crianças e jovens que moram nas ruas de lá. Falta-lhes a mais básica dignidade e muitas vezes o mínimo da condição humana.
A proposta do programa me lembrou ações do Movimento Nacional de Meninos e Meninas de Rua em Curitiba, que conheci e acompanhei (fiz reportagens à noite com eles) em 1995. Daquelas crianças, vi um se tornar educador de rua, formar família e ajudar alguns de seus amigos, superando inclusive as drogas. E aprendi a ter esperança na recuperação do ser humano, sempre que ele for tratado com dignidade e respeito.
Os projetos e história do Travessia podem ser conhecidos em seu site http://www.travessia.org.br.
One of us
Postado em Música, teatro no dia 25/07/2007Recentemente pude assistir a reprises de duas
entrevistas muito agradáveis com Ariano Suassuna. Como não podia deixar de ser, encantou-me a forma como ele conta sua própria história familiar (o pai foi assassinado num imbroglio ligado à morte de João Pessoa) e como conta com simplicidade de sua obra, como se fosse um principiante sem muita fé em si mesmo. Fala tudo com sinceridade e a firmeza que a história e a ciência concedem aos bons docentes. Fiquei ainda mais fã.
Mas continuo sem ter lido um único livro dele. Falha imensa que me faz parecida com muitos brasileiros: apreendo a cultura de meu país pela mídia televisiva e cinematográfica, até mesmo no que concerne à literatura. Por um lado uma pena, por outro uma bênção, pois me orgulha termos profissionais tão bons que consigam nos passar o sabor de um Suassuna nas telas como fez Guel Arraes com o Auto da Compadecida, um dos meus filmes favoritos.
Pois o Teatro Guaíra, em frente ao qual fiz faculdade em Curitiba, celebra Suassuna de 26 a 29 de julho no Mini-Guaíra. E o que é melhor, com entrada franca. Uma das histórias que compôs meu querido “Auto”, a do pai avarento e o porquinho que seria dote da filha estão em “O Santo e a Porca“, peça de estréia do Grutun!, Grupo de Teatro da UniBrasil. A iniciativa é fruto de uma leitura de poemas que os alunos fizeram para próprio autor em sua visita a Curitiba no início de junho. A direção é de Alex Wolf e coordenação de Victor Folquening.
P.S. Parece que não tem nada a ver, mas tem: já prestaram atenção à letra da música One of Us, de Joan Ozbourne? Estávamos ouvindo-a no carro no domingo e traduzindo para os meninos e me lembrei de imediato de uma passagem do Auto em que Jesus se apresenta como um negro para o Chicó, para testar sua fé.
“If God had a face, what would it look like“?
