Arquivo: June 11th, 2007

Preconceito e neofobia

Postado em from posterous no dia 11/06/2007

Pode parecer estranho, mas a vitória da Miss universo japonesa, desbancando brasileira, me fez pensar no preconceito. Um amigo meu, sansei puro, casado com nissei pura, foi quem me chamou atenção para o fato: ele disse que “não falta mais nada, pois até a miss universo foi japonesa, ganhando de uma brasileira muito mais bonita!”. Será? Achei que as duas mereciam… se fossem daqui, podiam ser primas, naquele esquema de que uma mineira tem uma prima meio japonesa… risos. Esta mistura é que faz nosso povo ser tão bonito e ter habilidades diferentes. Mas não podemos começar a pensar que o mundo tem que ser como nós, senão vamos recair no preconceito e na xenofobia, o que não combina, em absoluto, com o Brasil.

Por falar em fobias, ontem à noite Gui e eu aprendemos uma palavra nova: neofobia. Óbvia, sem comentários e ainda caberia no tema da miss Japão. Mas meu comentário é sobre ter sido ouvida no episódio de C.S.I. dita, claro, por Gil Grissom. Como ele falava de um rato, lembrei de Quem mexeu no meu queijo e no quanto este livro foi útil para algumas pessoas que eu conheço. Quando vejo utilidade em coisas assim, que são consideradas cultura inferior (como seriados e livros de auto-ajuda), penso em preconceito. É ele quem nos faz pensar que uma coisa vale mais que outra, numa mais-valia triste e pobre.

Que me perdoem os fãs, mas Grissom é, na minha opinião, um caso de autismo altamente funcional e só este fato já faz o seriado ter um valor imenso. Para mim é entretenimento e cultura, pois aumento muito meu vocabulário assistindo-o. Mas o sucesso dos C.S.I. é também, sempre penso comigo, a volta por cima dos estigmatizados e marginalizados nerds na sociedade americana. Aqui somos menos separatistas, mas lá a coisa pega fogo, é dura e sem meias-palavras ou panos-quentes. Ou se é “pop” ou não. Agora os esquisitos (todos lá no seriado são esquisitos, vamos falar sério) são pop!

Creio que seja característica da nova visão que a humanidade está assumindo e também dos avanços que temos alcançado nos diagnósticos e conseqüente atendimentos aos que são diferentes. Para se ter uma idéia foi na década de 1970 que se “descobriu” a dislexia e na mesma época o autismo ainda era considerado culpa da frieza da mãe. Hoje, graças a Deus e à ciência, temos uma visão cada dia mais esclarecida (adoro este termo, quer dizer que tem luz, claridade, conhecimento).
Tenho me aproximado do universo autista desde que me tornei amiga virtual da Simone e do Gábi, mãe e filho que são pessoas importantes na comunidade autista brasileira e que lutam não só pela inclusão e melhor assistência, mas em especial por desmistificar preconceitos, como o de que autista é sinônimo de frieza e falta de carinho. Não são, como Simone contou no Desabafo. Já tive um vizinho autista quando meus filhos eram bebês e lembro bem de como a familia era afetuosa com ele e da importância que a escola e os amigos tinham no seu cotidiano. Também tive uma amiga (de quando trocava cartas e não e-mails com desconhecidos, os penfriends) cujo filho autista era adulto e não tivera o mesmo tratamento, vivendo numa espécie de clausura, à qual a mãe era, inevitavelmente, submetida também. Uma diferença grande de enfoque que mostra como já evoluímos.
Simone é um exemplo destas novas mães, citadas tão recentemente em matérias das revistas Época, Seleções e no programa Oprah Winfrey Show. Ela é nutricionista, por isso ligada à área biomédica e se divide na visão de profissional e mãe de autista. Mas tem uma visão critica que vai além de ambos os papeis, o que admiro muito nela. Hoje no blog do Desabafo há também um post sobre o tema e vale a pena ler uma matéria antiga de Época.

Links (para meu clipping diário):

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