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Nov
27

Memória

Achei um texto que gostava muito na adolescência e estou postando aqui, chama-se Memória e é do Drummond.

Memória
Amar o perdido
deixa confundido
este coração.

Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.

As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão

Mas as coisas findas
muito mais que lindas,
essas ficarão.

(Carlos Drummond de Andrade)

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Nov
27

A liberdade é assim, movimentação

 

Visitamos o Museu da Língua Portuguesa e usei a frase da liberdade como título do desabafo que fiz contando do passeio com Enzo, Giorgio e Himawari:

A liberdade é assim, movimentação

Li a frase acima na exposição do primeiro andar do Museu da Língua Portuguesa, um fragmento da obra prima de Guimarães Rosa. Como já era minha segunda visita ao museu, admito que deveria ter levado mais a sério o conselho do escritor.

Um espaço artístico deve ser de liberdade, ou não? Eu sempre me pergunto isto quando levo meus filhos a exposições e museus. Um passeio que eu e meu marido apreciamos e desejamos que seja natural para eles. O difícil é que para criança ser natural é ficar correndo e gritando… Como conciliar isso?

Achei muito complicado evitar que eles se movimentassem num espaço incrivelmente criativo e interessante como a mostra em homenagem à obra Grande Sertão: Veredas. Giorgio e sua amiga Himawari, de 5 anos, que estava nos acompanhando no passeio, não resistiam a esticar as mãozinhas e puxar os “panos” que reproduziam paginas da primeira versão do livro.

Quando os sacos com terra do sertão desciam junto, ai, que frisson. Eles queriam puxar todas as páginas – e eram muitas. E quase tiraram do lugar os “amontoados” de tijolos e de entulhos que formavam outros trechos lindos da obra. Enzo, aos seis anos e já completamente alfabetizado, amou as instalações que obrigavam o visitante a subir em andaimes para ver quais palavras se formavam nos escombros. E também leu algumas das frases que estavam nos espelhos d’água, escritas ao contrário e exigindo pequenos espelhos de mão para serem lidas.

Encantou-se especialmente com uma lista de palavras em japonês, de som curioso, e que seriam usadas numa obra futura do autor. A escola de educação infantil do Enzo era bilíngüe (japonês e português) e ele gosta de fazer estas brincadeiras sonoras também, o que lhe trouxe identificação e empatia.

No andar de cima do Museu fica a parte tecnológica e aí as crianças se encontraram em seu verdadeiro ambiente. Podiam correr, dançar e falar alto enquanto assistiam ao vídeo sobre a Língua Portuguesa. Patrocinado pela Rede Globo, este setor do museu pareceu-lhes mais familiar pelas imagens, pelo ritmo da apresentação delas e até pela voz dos locutores como o ator Lázaro Ramos.

Eles adoraram em especial o trecho da música Aquarela do Brasil, de Ary Barroso, apresentado nas imagens do filme Você já foi à Bahia, clássico que apresentou o personagem Zé Carioca ao mundo de Walt Disney. Tentamos ver os computadores, que comparavam palavras e mostravam influência de outros países e idiomas ao nosso português brasileiro, mas foi difícil conseguir nos aproximar das máquinas. Lá os adultos pareciam crianças. E descobri que na sala onde se pode juntar palavras numa mesa de luz, aí sim os adultos são crianças e não abrem um espacinho mísero para os pequenos verem o que se passa.

Pela segunda vez, o Enzo ficou na vontade, pôde “brincar pouco” com os radicais e formar novas palavras. Mas foi uma agradável surpresa notar que o Giorgio, que na nossa primeira visita (em julho) não tinha aproveitado muito, desta vez reconheceu muitas letras e símbolos, encantando-se também com o passeio.

Ele era O Menino Que Aprendeu a Ver, como no livro da Ruth Rocha. Ao notar a carinha de surpresa dele e da Himawari, que atualmente estudam no jardim 1, percebi que o sacrifício valeu a pena. Admito que o passeio não é mesmo para crianças não-alfabetizadas, mas também não deve ser limitado a crianças com mais de 12 anos, como sugerem algumas placas espalhadas por lá.

Nov
10

O que fazer ou Como reagir?

Hoje estava conversando com minha amiga Lina, do Japão, depois de muito tempo e estávamos refletindo juntas como esta saída do ninho muda o foco da gente. Quando morei no Japão sentia que ao mesmo tempo em que estava limitada me faltavam limites, me faltava uma linha pela qual seguir e a linha é uma forma de limitação que nos dá segurança.
A importância desta limitação é um dos preceitos da Supernanny, que eu entrevistei nesta semana e que tem me levado a pensar na forma como quero educar os meninos de agora em diante. Porque com o Enzo entrando na segunda infância muda meu foco, não preciso mais ensinar o que fazer, mas sim como reagir. Hoje enquanto esperava a perua escolar estava lendo a Época. É a hora que me sobra me sobra para esta leitura de revista semanal de informação, mas uma hora que tem sido útil. Vida de mãe parece ser uma perseguição pelo que é útil. A matéria que li falava de bullying, o ijimê do Japão, ou seja, aquela perseguição e agressão pelo diferente na fase da pré-adolescência. Veio-me à mente novamente o como reagir. Como reagir ao mundo que tenta sempre nos pasteurizar? Fui uma adolescente muito preocupada em ser igual (no ginásio) e em ser diferente (no segundo grau). Na faculdade não precisei fazer nada porque era diferente mesmo, no meio de toda aquela turma de comunicação eu era normal demais. Parecia uma aluna de pedagogia perdida lá.
Bem, agora que sou uma balzaquiana, eu prefiro adotar uma postura neutra, deixo cada um pensar o que quiser de mim (que sou uma dona de casa burra, ou uma intelectual, ou uma fútil) e já não me importo mais, porque já concluí há tempos que as pessoas vão pensar o que quiserem mesmo, independente do que a gente verdadeiramente é. Mas será que devo passar esta minha conclusão para meus filhos ou deixa-los experimentar? Creio que seja este meu atual impasse como mãe.Bem, minha mãe nunca foi muito autoritária, só não nos queria ateus e burros, sempre provocando conversas sobre coisas mais profundas, mas ela é advogada e filha de jornalista, nem dá para contar. Sabe-se lá sobre o que conversava com o pai dela, que eu não conheci, apesar de ter sido a herdeira da sua profissão.
Sair do Brasil significou muita coisa para mim. Sair do ninho me fez ver que podemos vencer ou ser vencidos por tudo, independente do lugar. Se aqui a gente fica culpando o Brasil, a economia, o povo, enfim, coisas exteriores a nós pelo nosso não-desenvolvimento, quando estamos fora não temos as mesmas desculpas: ou recomeçamos a ladainha de reclamar ou assumimos nossa capacidade ou incapacidade. E descobrimos que o verdadeiro Bully, o cara valentão que nos agride, usa nossa força interior para fazê-lo.Será que eu conto isto para o Enzo ou deixo ele aprender sozinho?

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Nov
09

Tarefa com Larousse

Ontem vivi com o Enzo outro daqueles frios na barriga, de quando sentimos que o cordão umbilical já era mesmo! Pior que o da bicicleta de aro 20 e dos vários dentinhos permanentes dele.
Fomos fazer tarefa e ele tinha que fazer uma pesquisa sobre alguns animais. Dizia para falar com outras pessoas da sua casa (interessante este ponto de vista da escola dele, nunca fala “fale com sua mãe”), mas ele queria pesquisar em livros. Enzo tem muitos livros, nunca vi uma criança ter tantos, pois nós, meus pais e meus sogros temos mania de dar livros para ele. Apesar de ter uma enciclopédia infantil sobre animais (chama-se Primeira Enciclopédia e tem 10 volumes), ele quis pesquisar na Larousse Cultural, uma “enciclopédia de verdade” que minha mãe comprou para ele quando soube que eu fiquei grávida. Sim, é verdade, ela comprou antes que eu chegasse do Japão!
Foi uma experiência emocionante ver meu filhotinho lendo sobre baleia, leão, hipopótamo e cavalo direto lá. Ele aprendeu o que é s.f. ou s.m. (substantivo masculino ou feminino) e de onde vinham os nomes dos animais, se do latim ou grego. Como o Enzo ama a Grécia por causa dos Cavaleiros do Zodíaco, chamou a atenção dele. E mal líamos ele já se virava para o caderno para sintetizar nossa leitura nas poucas linhas que tinha, naquela letrinha manuscrita que ele ainda está aprendendo. Ai, foi lindo!

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Nov
08

mil e nocententos… A de amor, B de baixinho no ipod!

Estou aqui arrumando as musicas infantis no I-pod shuffle do meu filhote. Quem diria, seis anos e o Enzo já tem um, de tanto pedir, torcer para ganhar em toda promoção de que ouvia falar, o pai dele comprou um apple para ele no dutty free. Nada como um feriado pescando no Paraguai (sem a família) para estimular a generosidade masculina. Giorgio ganhou um bat-car da década de 1940 (é, na falta de outras coleções, agora começamos a dos carros de super-heróis, haja prateleira!) e eu um perfume Versace. Nada mal.
Consegui baixar musicas da minha infância para os meninos, foi muito divertido escutá-las e notar a reação deles com minhas cantorias. É, a gente não canta para eles depois que crescem, já percebi. Outro dia numa semana de “resgate das tradições” -leia-se das coisas antigas- na escola Giorgio aprendeu duas músicas da Xuxa: Ilairiê e A de amor, B de baixinho… quando ele contou na hora do almoço e eu contei as duas músicas inteiras, nossa, ele ficou pasmo! Como que eu podia saber? Vá explicar que é tão velho assim!
Aliás, descobri que o Enzo e a classe dele chamam de velho quem nasceu em mil e novecentos. Tipo assim: “nossa, a Sarah é de mil e novecentos (detalhe, de 1999), háháháhá!”. Eles fazem piada dos coitados. Que coisa! Imaginem a cara dele quando eu contei que sou de mil novecentos e setenta e três!
Passei o feriado na companhia da minha mãe, a segunda visita dela sozinha desde que mudei para Sampa. Foi muito gostoso, até diferente e terminou com ela dizendo (vejam que minha mãe é super formal, fala assim com a própria filha): “Obrigado por me obsequiar com tantos passeios“. Acho que só a minha mãe ainda usa esta palavra, mas se não for, deve ser a única pessoa que fala para a filha. (risos)
Tivemos a coragem imensa de levar as crianças, Enzo, Giorgio e minha sobrinha postiça Himawari ao Museu da Língua Portuguesa. Uma loucura mesmo, minha segunda e última tentativa com o Giorgio lá por uns dois anos, no mínimo. E vejam que para evitar o trânsito deixei o carro no estacionamento e fomos de metrô! Isto é que é aventura. Na volta, para relaxar, fomos no Bar da Mooca tomar o novo chope preto da Brahma. Acho o serviço deles maravilhoso: a gente mal senta à mesa com as crianças e o garçon traz revistinhas de atividades infantis e giz de cera para a molecada! Só assim para relaxar, não?
História do bar naquela noite. Levo o Giorgio no toillete (ele está naquela fase de provar a água e o banheiro de todo lugar onde vai) e ele me pergunta: “Mamãe porque garçon chama garçon?”. “Ah, porque garçon quer dizer menino em francês, acho que eles chamavam ‘garçon’ que nem a gente fala ‘moço’ e ficou assim. Sabia que em inglês se fala ‘waiter’, acho que porque o cara fica esperando o pedido, quer dizer ‘esperador’… respondi. Mal tinha falado e uma moça, que estava no cubículo ao lado, solta esta: “mãe também é cultura, esta eu aprendi agora!”. E ela ficou esperando o Giorgio terminar e sair para ver a carinha do menino com voz infantil e que falava tão bem! Pode?E um comentário que não posso deixar passar e que tb li no blog da Manu, do Desabafo. O retrato das novas mães, chamadas de mães sinceras, na Época desta semana. Achei interessante, ainda mais nesta minha fase profissional. Quero ler o livro indicado, The Mask of Motherhood.

Para quem ficou curioso: músicas da minha infância são os musicais da década de 1980: Saltimbancos, Plunct Plact Zum, Casa de Brinquedos, Arca de Noé. E não, as músicas da Xuxa eu não inclui no i-pod do Enzo, preferi deixar espaço para o Palavra Cantada.

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Nov
05

Para pais e mães de meninos…

Para pais e mães de meninos…
Li o texto abaixo no orkut hoje (na comunidade pais e filhos) e achei uma graça.
Identifiquei passagens do dia-a-dia dos meus dois filhos, de 4 e 6 anos, ao ler o retrato de menino. E tb confesso que identifiquei algumas das histórias da infância do meu marido. A pessoa que postou não sabia o autor, mas minha prima Giselle (filha do meu padrinho) achou: Yan Marten . Segue abaixo.

O QUE É UM MENINO?

Entre a inocência da infância e a compostura da maturidade, há uma deliciosa criatura chamada menino. Embora se apresentem em tamanhos, pesos e cores sortidas, todos os meninos têm o mesmo credo: aproveitar cada segundo de cada minuto de todas as horas de todos os dias e protestar ruidosamente (o barulho é sua única arma) quando seu último minuto é decretado e os adultos os empacotam e os metem na cama.
Meninos são encontrados em todas as partes: em cima de, embaixo de, dentro de, subindo em, balançando-se no, correndo em volta de, pulando para. As mães os adoram, as meninas os odeiam, irmãos e irmãs mais velhos os suportam, adultos os ignoram, o céu os protege.
Um menino é a verdade com rosto sujo, a beleza com um corte no dedo, a sabedoria com um chiclete no cabelo… Quando você está ocupado, um menino é uma conversa-fiada, intrometido e amolante. Quando você deseja que ele cause boa impressão, seu cérebro vira geléia ou ele se transforma em uma criatura empenhada em desmontar o mundo .
Um menino é híbrido: o apetite de um cavalo, a disposição de um Engole-espadas, a energia de uma bomba atômica de bolso, a curiosidade de um gato, os pulmões de um ditador, a imaginação de Júlio Verne, o entusiasmo de um bombeiro e, quando se mete a fazer alguma coisa,é como se tivesse cinco polegares em cada mão. Gosta de sorvetes, canivetes, serrotes, pedaços de pau (em seu habitat natural), bichos grandes, papai, sábados, domingos e feriados, mangueiras de água. Não é partidário de catecismo, escolas, livros sem figuras, lições de música, colarinhos, barbeiros, meninas, agasalhos, adultos e “hora de dormir”. Ninguém mais é capaz de meter num único bolso um canivete enferrujado, uma maçã comida pela metade, um metro e meio de barbante, um saco de matéria plástica, tres notas de dinheiro, um estilingue e um fragmento de “substância ignorada”.
Um menino é uma criatura mágica: você pode mantê-lo fora do seu escritório, mas não pode expulsá-lo de seu coração. Queira ou não, ele é seu captor, seu carcereiro, seu dono, seu patrão - um sarapintado, um nanico, um pacote de encrencas. Mas, quando à noite você chega em casa, com suas esperanças e seus sonhos reduzidos a pedaços, ele possui a magia de soldá-los num segundo pronunciando apenas:
Mamãe!…Papai!

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